domingo, 14 de janeiro de 2018

Impressões sobre uma viagem a Paraty



Neste último reveillon, nos aventuramos em uma viagem de carro até Paraty-RJ, que durou 10 dias. A partir de Camboriú-SC, as estradas deixaram de ser conhecidas e começamos a sentir o prazer de explorar novos caminhos nessa imensidão que é o Brasil. Ingressamos no Paraná, via BR 101 e BR 376, subindo a serra até Curitiba, Registro e daí descendo em direção ao litoral sul de São Paulo, onde pernoitamos na cidade de Itanhaém - segunda mais antiga do País! -, cuja antiguidade só é lembrada por umas poucas construções históricas. Dali seguimos diretamente a Paraty, tomando a glamorosa rodovia Rio-Santos, a qual costeia o litoral norte de São Paulo e segue até o Rio de Janeiro. Embora linda em suas alternâncias de serra e praia, a estrada estava obviamente congestionada nessa época, o que exigiu muita paciência e procura por rádios que não fossem religiosas ou da praga sertaneja. Chegar e descobrir Paraty foi como encontrar um oásis, por sua história bem preservada nos prédios de seu centro histórico e pela deslumbrante natureza que a cerca, com suas incontáveis ilhas e praias acessíveis por barco, em que a todo instante se descortinam paisagens de tirar o fôlego. A arte se faz presente nos incontáveis atelieres, nos artistas de rua e no cenário real de seu casario. A noite da cidade é um capítulo à parte, com seus restaurantes e boa música tocada em vários estabelecimentos, à margem das caravanas de pessoas que caminham equilibrando-se nas pedras irregulares de suas ruelas. Apesar do grande fluxo de turistas, não se tratava daquela turba insandecida que, em outros lugares turísticos, vê a virada do ano como um ensaio do apocalipse. O público de Paraty curte o lugar no ritmo da cidade, devagar, contemplativo e de bem com a vida. Foi muito bom conhecê-la, deu vontade de voltar antes mesmo de partir e cogitaria morar lá numa eventual negociação com o destino. Na volta, cinco dias depois, ficamos uma noite em Ubatuba (Praia das Toninhas), onde pegamos praia e vimos o jeito paulista de curtir o seu litoral, geralmente sentados em kiosques para comer e beber todo o tempo, um tanto indiferentes à beleza daquela natureza. Surpreendeu a estrutura um tanto precária das praias do norte paulista, em termos de urbanização e serviços diversos, ficando a impressão de que estão atrás das praias maiores do litoral gaúcho. Mais um pernoite na estrada, após horas de rodagem, num hotel próximo ao aeroporto de Curitiba, e no outro dia chegávamos à nossa conhecida praia de Garopaba para outro pernoite e um pouquinho mais de praia, antes de rumarmos à casa. Enfim, apesar da época do ano ser pouco recomendável, valeu muito a pena rodar por esse trecho do Brasil, vivenciando caminhos e lugares, outras gentes e, principalmente, novas sensações em nossa própria terra.

Feliz 2018 aos amigos leitores!

domingo, 19 de novembro de 2017

Prova de amor


O amor justifica grandes gestos de demonstração, muitas vezes públicos e caros. Casamentos suntuosos, out-doors, declarações apaixonadas em redes sociais e por aí vai. Mas sua verdade é revelada, mesmo, na maioria das vezes, por atos simples e quase imperceptíveis aos olhos dos outros, porque não visam fazer prova aos demais, nem mesmo à pessoa amada. Esses atos são motivados apenas pelo querer-bem ao destinatário desse amor, até mesmo sobre e antes do seu próprio bem estar. Isso pode ser ilustrado por uma notícia recentemente publicada no obituário da Zero Hora, dando conta do falecimento de um casal de octagenários, que morreram nos fundos de sua casa no País de Gales, quando o marido sofreu uma queda ao cuidar do jardim, quebrando várias costelas. Ao ir acudi-lo, a esposa também veio a cair de forma fatal a seu lado. Ao serem encontrados, já sem vida, a pequena notícia não omitiu o surpreendente detalhe: o homem jazia com a cabeça sobre uma almofada, provavelmente colocada por sua mulher. Mesmo na dor e agonia daqueles instantes finais, esse simples cuidado com o outro revela que o amor dos dois ainda era mais importante que a sobrevivência de cada um. Na linguagem do amor, os pequenos gestos podem ser mais eloquentes que belas palavras...

domingo, 23 de julho de 2017

O dia

Parece que perdemos a noção do dia como a mais importante medida do tempo. Chegamos ao ponto de desprezá-lo em rotinas mecânicas de trabalho, lazer e puro tédio, porque estamos sempre mirando à frente, ao futuro, onde esperamos que as coisas irão acontecer, quando elas acontecem hoje e somente hoje. O futuro é uma incógnita e o previsível é pura pretensão. Tudo, absolutamente, de bom e ruim, acontece no espaço de um dia. Mesmo quando algo se prolonga por mais tempo, os dias não serão iguais entre si. O beijo, o amor, o encontro, a dor, a perda, a conquista, a emoção, o instante de êxtase, a reconciliação, o dito e não dito, a queda, o tiro, a morte, tudo!, passa-se em um dia, o dia de hoje, o presente. Suponho que nossos ancestrais viam no dia o ciclo único e perfeito, o desafio a ser vencido na aventura de sobreviver, saindo de suas cavernas com o sol e recolhendo-se à noite com os produtos da jornada, sentindo-se vitoriosos. O futuro para eles, creio, era por demais improvável para ser considerado num mundo de tantos riscos. Hoje, o homem vive sob a falsa segurança de que tudo é planejável e que há controle sobre o amanhã, mas não é assim, o amanhã não é certo e, como diz o Gil, "tudo agora mesmo pode estar por um segundo". Mesmo a felicidade, essa sina dos homens de todas as épocas, também só pode ser vivida e sentida a cada dia, sem postergações ou antecipações. O dia, meus amigos, enfim, é tudo que temos...

domingo, 9 de julho de 2017

Liberdade



De onde trabalho, na minha pequena sala de escritório, espremido entre o computador e os papéis, ouço quase diariamente um cara que passa pela rua à frente, cantando alto e desgraçadamente desafinado uma música ruim, sem dar a mínima importância para o seu vexame público e sua aparente loucura.

Dia desses eu parei e pensei que ele, em realidade, era muito mais livre que eu. Assim, caminhando e cantando no claro do dia, sem nenhuma preocupação, nem com a afinação nem com a vergonha.

Ao contrário, eu me encontrava preso aos meus compromissos, clientes e tarefas, que eu necessito manter para sustentar um padrão de vida que provavelmente eu nem necessite. Preso às responsabilidades de ser competente e manter uma boa imagem pública, que desapareceriam se eu saísse cantando pela rua – mesmo que afinadamente.

Quem realmente é livre? Do que necessitamos para sermos livres? Liberdade é adquirir bens e respeito para não depender de ninguém, ou é possuir apenas o mínimo que dependa de você?

A liberdade plena é uma utopia, jamais a teremos. Salvo, talvez, na morte, mas aí estamos falando de uma outra dimensão, outro plano de existência, ou do nada absoluto. Jamais seremos absolutamente livres porque necessitamos de nossos pares para viver, exercer nossa identidade e, até mesmo, ser felizes. Esse condicionamento ao outro nos impõe regras inevitáveis, mais ou menos amplas e flexíveis, que nos darão maiores ou menores alternativas de exercício da liberdade. O livre arbítrio, nesse contexto da realidade, é um bonito conceito. Mas, em verdade, sua  importância não está em justificar uma possível liberdade de escolha. O livre arbítrio deve servir para questionar, corromper e subverter, sempre que necessário, a nossa falsa sensação de liberdade e segurança, quando questiona o sentido das nossas escolhas no meio da madrugada, e que de nada adiantará se estiver desacompanhado da coragem de escolher diferente dentro das muitas possibilidades de ser livre...

sábado, 27 de maio de 2017

O mundo de hoje

O mundo de hoje está dividido entre ONGs e voluntários que fazem todo o tipo de ação colaborativa, solidária ou de proteção a bens públicos X pessoas egoístas que só visam o bem próprio; empresas e empresários inescrupulosos que poluem, exploram o trabalho alheio e burlam as leis X aquelas(es) que olham para a sociedade e o Estado como o ambiente sagrado de seu desenvolvimento; pais que educam e dão amor a seus filhos X filhos abandonados por seus pais e adotados pela marginalidade; pessoas violentas, brutas e ignorantes, que repelem o belo e não questionam a razão de suas vidas X poetas sensíveis à natureza e à beleza escondida nos menores gestos humanos; pessoas que amam e permitem ser amadas X os que nunca encontrarão o amor por serem movidos pelo ódio, a si próprios e aos outros; visionários que transformam o mundo com suas ideias X talentos desperdiçados pelas mais estupidas razões e circunstâncias; religiosos que exercem a sua fé x descrentes de tudo; os que encontram sentido no trabalho X aqueles para quem o trabalho não faz sentido; os que sonham X os que se resignam; uns tantos que chegaram onde queriam X muitos outros que não fazem ideia pra onde ir; os que são X os que somente estão por aí. 

Na verdade, o mundo de hoje divide-se como sempre se dividiu: entre o bem e o mal, os bons e os maus, o bom e o ruim, o certo e o errado, o positivo e o negativo...não há meio termo entre os seus polos.

domingo, 7 de maio de 2017

Ah, a amizade...

A amizade...ah, os amigos...
A amizade parece até uma derivação do ar, esse estado da natureza normalmente ausente aos sentidos e, ao mesmo tempo, tão essencial. É etérea e oscilante, como também oscila a pressão e a temperatura do ar. Num instante estamos tão próximos a um amigo, numa relação de intensa proximidade, que não conseguimos imaginar a vida sem ele, até que a distância de espaço ou interesses, o tempo, ou ambos, nos mostram que a amizade, assim como o vento, se dispersa e se esvai. Sentimos a ausência de uma boa amizade que se distanciou, como o frio do inverno faz lembrar o bom calor do verão. A falta daquela intimidade conquistada, da confiança natural que nos faz confidentes mútuos, que divide planos, tragos e boas risadas. Nem sempre os amigos ficam por perto, ou ficamos perto deles. Ao contrário, o normal é que os caminhos se desencontrem e que durante o caminho os amigos venham e vão, novos em lugar dos antigos, os que reaparecem e se tornam velhos amigos novos. Porque a amizade tem isso também, amigos que perdem o contato e reaparecem depois de muito tempo, não são mais íntimos, são quase estranhos, que voltarão a ser tão amigos ou não... A amizade também é uma forma de amor, a ponto de poder se confundir com o desejo e a paixão, como às vezes podem ser confusas a amizades entre homens e mulheres, por exemplo. Esse amor entre amigos, sem desejo nem ciúmes, de querer o melhor pro outro sem cobrar pra si, de querer doar mais que receber, de se regozijar com a felicidade de quem se quer bem, como a um irmão que se pode escolher, é uma dádiva e uma raridade, que ao lado do amor de casal e familiar é o que mais nos aproxima da felicidade. Agradeço aos meus grandes amigos de hoje - que são poucos -, sinto falta de muitos de outros tempos, e ainda quero conquistar mais alguns valiosos no tempo que me resta. Que os bons ventos nos tragam sempre as melhores amizades!

sábado, 15 de abril de 2017

Sempre lembraremos, Dona Ivone...

"A QUEM AMO

Lembra-te de mim
ante a natureza,
bela e perfeita a cada instante;
amo a beleza
e, como eterno andante,
nela certamente buscarei abrigo.

Lembra-te de mim
ante a grandeza
dum pintor, dum poeta ou musicista;
verás, surpresa, 
que, sem ser artista,
o amor à arte convive comigo.

Lembra-te de mim
numa criança,
com ela sempre cruzo em meu caminho.
É a esperança 
revestida de carinho
que faz morada em coração amigo.

Lembra-te de mim
na alegria,
pois gosto de te ver sorrindo.
Vive a magia
do teu mundo lindo,
que por te conceder, a Deus bendigo.

Lembra-te de mim
na tristeza,
superando tudo o que te faça triste.
Crê na certeza
de que o amor persiste
e mais que nunca eu estarei contigo!

Lembra-te de mim..." (Ivone Selistre)