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A derrota para o tempo

Há vitórias que dependem totalmente de uma única oportunidade. Numa copa do mundo, a vitória tem que ser conquistada na duração de uma partida, porque depois que ela acaba o jogo está ganho ou perdido, irremediavelmente. Muitas vezes, aliás, uma equipe mais fraca joga por única bola contra a seleção favorita, reduzindo ainda mais a sua oportunidade a um único lance. E para quem perde, fica o gosto amargo da derrota não apenas para o placar, mas sobretudo para o tempo e as dúvidas inerentes à imprevisibilidade do futuro. Será que ainda conseguirá jogar em alto nível para ser convocado daqui a quatro anos? Ainda terá idade e força? Será que se classificarão para o mundial? Será que estarão melhores? Enfim, pra quem perde fica a incerteza sobre a possibilidade de uma nova chance futura. E se essa nova chance não vier é porque você perdeu então a sua oportunidade de ser campeão, passando para a história como um perdedor por seu país. Claro que há derrotas tão dignas como vitórias, assim co...

E o shape mental?

Os tempos são outros mesmo. O culto à saúde e ao corpo parece ter conquistado de vez os hábitos da maioria dos jovens brasileiros. Essa galera dos vinte e poucos anos que já não sai mais à noite, nem aos sábados!, para acordar cedo e treinar ou competir. Que não bebe mais com amigos, nem vai pro bar ou pra balada flertar ou conhecer outras pessoas. Sexo?, também parece não ser mais prioridade, nem para os solteiros nem para os comprometidos nessa idade. O negócio agora é ser fit , cuidar da alimentação e ter o físico em condições de ser exposto nas redes sociais, ou apenas para se engajar. Outros até radicalizam se tornando body builders , treinando e correndo maratonas ou fazendo triatlo. Rotinas rigorosas de atletas pra quem não é, mas quer parecer que é, ou ter atitude como tal. Enfim, eu fico olhando pra essa galera toda e pensando se, com tanta dedicação ao corpo, sobra algum tempo para atender as necessidades (e prazeres) mentais de cultura, conhecimento, boa informação e erudiçã...

Oscar

Na minha época de colégio pratiquei muitos esportes, que vinham em fases, muitas vezes por influência daquilo o que a seleção brasileira da respectiva modalidade esportiva conquistava e contagiava toda a nação. Foi assim com o futebol nas copas do mundo de 82, 86 e 90, em que, mesmo perdendo, tínhamos grandes ídolos jogando. Também no vôlei com a seleção de prata de Bernard, Renan e William. E, é claro, o basquete da seleção que venceu os Estados Unidos no Panamericano de 87 - algo que ninguém acreditava possível. E essa seleção mostrou para todo o Brasil, e o mundo!, o talento de seu maior jogador, Oscar, recordista de pontos nessa final e em quase todas as competições que participou. Um cara que depois recusou um convite para jogar na NBA, onde certamente se consagraria e ficaria milionário, para poder continuar defendendo a seleção brasileira, pela qual tinha verdadeira veneração e um senso de dever absoluto. Nos anos finais do meu tempo de colégio, especialmente nesse ano de 1987, ...

"Eu vou onde eu quero"

Temos uma amiga que só encontramos à noite, nos bares e pubs daqui da nossa cidade e do litoral. Apesar de termos nascido na mesma cidade, indo morar em Tramandaí, não sei muito da família dela, mas sei que ainda cuida de sua mãe junto com os irmãos. Ainda nesse verão, comemorou seus 70 anos com uma grande festa para os amigos. No sábado que passou, nos encontramos no pub da praia, é claro, e nos cumprimentamos com alegria, quando ela disse que um amigo em comum, dono de outro bar, estava desgostoso porque ela não ia mais ao local que, de fato, abria e fechava muito cedo, quando ela disse essa frase que marcou o momento: "Eu vou onde eu quero". Essa sentença traduz toda uma afirmação de si mesma que é invejável. Não sei o que ela passou em sua vida e nem com quem, mas essa frase é quase um lema de liberdade. Vindo, então, de uma mulher que a desfruta convicta do valor da vida e livre das convenções sociais, além de seguir trabalhando e cuidando dos seus, é muito bonito e moti...

Liberdade à beira mar

Todo o verão é a mesma coisa. Multidões se deslocam para o litoral, lotando estradas e as praias de destino para passarem alguns dias de descanso. A pergunta que surge é por que a maioria busca ir para perto do mar gozar o ócio e relaxar? Minha tese é que não é apenas para fugir do calor, ou para seguir o fluxo. Acredito que ir para a praia permite viver uma sensação de liberdade que dificilmente seria vivida em outro lugar. Além de não estarem trabalhando, essas pessoas podem assumir hábitos que não caberiam em suas cidades de origem, como circular em público com seu "velho calção de banho" ou em trajes mínimos, de chinelos e um óculos de sol, até mesmo para ir ao banco ou entrar num restaurante. Você se imaginaria andando de sunga e regata pelas ruas de Porto Alegre? Não né, mas na praia isso é o normal, e essa liberdade de quase-nudez, esse total despojamento aliado a banhos de mar e a sol em excesso trazem consigo também uma natural simplicidade de ser, como se fôssemos í...

O amor e seus personagens

O amor pode assumir diferentes personagens. Pode ser um viajante que chega como forasteiro, conquista seu lugar, mas parte novamente sem aviso. O amigo fiel e próximo que se declara ou apenas observa, à distância, o ser amado. O bandido que arromba a porta do coração alheio, bagunça tudo e leva o que pode, deixando o lugar vazio. O construtor que ergue diariamente tijolos de uma obra interminável feita de sentimentos próprios e alheios que se fortalece à medida que cresce de tamanho, mas que, paradoxalmente, nunca deixa de ser frágil, porque o material desses tijolos é feito de partículas unidas por uma magia inexplicável. O palhaço que te faz rir e se maravilhar como se voltasse a ter a alegria de uma criança, sentindo-se bem com a vida e com o fato de estar vivo por causa dele. O amor pode ser muitos e cada um, com sorte, viverá o seu amor e poderá ver nele um personagem que o caracterize. Vilão ou mocinho - porque o amor nem sempre será bom ou gerará boas consequências -, o importan...

2025

O ano de 2025 se despede na correria típica até a chegada do Natal e de um breve período de descanso. Não sou de fazer balanços do que passou em cada ano e nem planos para o próximo, mas vou registrar aqui - ao menos para mim mesmo - alguns momentos importantes na minha vida neste ano. O primeiro, lá no início do ano, a parceria na letra de uma música com o amigo Dani Israel chamada "Todo um novo amor", gravada com um timaço de amigos músicos num ambiente de criatividade fluida no estúdio e que resultou, modéstia à parte, numa bonita canção. A possibilidade de ver uma obra sendo construída a partir de palavras e sons é algo único, uma grande realização pra mim que sempre tive pretensões de compor. Tenho muita gratidão pelo Dani ter topado essa empreitada com alguém pouco experiente, ao contrário dele que já tem uma longa estrada compondo seus próprios temas. O segundo momento do ano, esse triste, foi a perda da minha vó Olmira aos seus 101 anos. Ela que considero minha segund...