domingo, 28 de fevereiro de 2016

Kristilayne



Irrompeu o salão do restaurante, chamando a atenção pela entrada desajeitada e abrupta, esbarrando em um garçom. Foi engraçado para os que o viram chegar assim, até que sacou uma arma de dentro do casaco largo e pediu alto pela atenção de todos. Os gritos iniciais foram logo sucedidos pelo silêncio dos espectadores, à espera do anúncio do propósito que trazia aquele homem armado até ali. Tão nervoso quanto os demais, ele custou a articular a primeira frase. Pediu, com voz hesitante, que todos permanecessem em seus lugares, com as mãos sobre a mesa e se mantivessem calmos. Seguiu-se uma pausa logo interrompida por um conviva mais ansioso que perguntou ao fundo: “O que você quer?”. “Cale a boca! Já vou explicar!”, respondeu contrariado o único sujeito em pé no meio do salão. “Eu estou aqui para realizar a minha vingança e para que todo o mundo saiba quem é a culpada pelo que vou fazer”. O cliente ao fundo voltou a se manifestar: “E o que você vai fazer?”. A nova intervenção deixou o malfeitor ainda mais contrariado. “Calma, deixa eu falar, pô!”. Nova pausa angustiante. “Eu vou matar a todos vocês por causa dela!”. Seguiram-se mais gritos, choros incontidos, um ou outro desmaio. Calmamente, o senhor ao fundo do salão questionou: “Mas ela quem, tchê?”. “Ela, a Kristilayne! Vou matar todos aqui pra que ela carregue pra sempre a culpa pela morte de vocês. Porque ela me deixou e acabou com a minha vida!”. Nesse momento, cessaram os gritos, os choros e lamentos. O silêncio que se instaurou já não era de pavor, mas de uma certa incredulidade. Numa espécie de sintonia telepática, todos ali perceberam que o homem armado não era um assaltante perigoso, terrorista ou um psicopata. Deram-se conta que o homem, coitado, estava desesperado por ter levado um pé na bunda, e que eles, sem nada com isso, corriam o risco de levar um tiro por conta do desamor de uma tal de Kristilayne – como se escrevia esse nome foi a terceira coisa que passou pela cabeça de todos. O sujeito do fundo não se conteve e falou com evidente ironia: “Meu amigo, tenha dó, que você esteja passando por um mal momento a gente está vendo. Que o amor leva qualquer um a cometer loucuras, todo o mundo sabe. Agora, que você venha até aqui nos dar um susto desses, com essa arma de brinquedo por causa de uma tal de ‘Cris alguma coisa’, sinceramente, é uma baita sacanagem! Vá encher a cara e não encha o nosso saco”. Resignado, o homem baixou a cabeça, virou-se e saiu lentamente do restaurante, sob o olhar incrédulo de todos. Moral da história: todo grande gesto exige uma boa causa – ou uma arma de verdade.