sábado, 31 de dezembro de 2016

Feliz Ano Novo!

Um ano pode passar quase desapercebido pela rotina dos dias e fatos sem grande importância, a ponto de se olhar pra trás e não lembrarmos de algo importante que tenha acontecido ao longo dele.

Um ano pode ser marcante, por outro lado, apenas por um grande acontecimento, de repercussão geral ou pessoal, na vida de alguém.

Vou me despedir desse 2016 sem jamais poder esquecê-lo. Coisas importantes aconteceram no país, como um novo impeachment, uma olimpíada, a prisão de políticos importantes etc. Mas foi no plano pessoal que ele me marcou...

Foi um ano de emoções conflitantes e ressignificados, de perdas e ganhos. De abrir as portas interiores, revelar segredos guardados, tomar decisões em suspenso, de viver expectativas e realidades até então não vividas e, de repente, intensamente sentidas.

No balanço das coisas boas e ruins do ano, o saldo é positivo - obviamente - porque tive saúde, amor e trabalho em plenitude. E mesmo o que não deu certo, deixou lições e proporcionou vivências significativas. Vida e sentimento, viver e sentir, ou viver por sentir, enfim, o sentimento como a essência de estar vivo.

O 2016 foi difícil e intenso, como é a vida, pra quem se dispõe a fazê-la acontecer. Que em 2017 possamos desfrutar os frutos desses esforços realizados e trocar os sonhos alcançados por outros novos, ainda maiores.

Feliz Ano Novo!

sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel

O nosso reducionismo simplista tende a dividir tudo entre extremos: o bom e o mau, o certo e o errado, o justo e o injusto. Hoje foi anunciada a morte de Fidel Castro, e as notícias o qualificam ora como ditador, ora como revolucionário, ora como o líder maior de seu país, ora como seu algoz. Porém, se existe alguém que parece não se encaixar nesses maniqueísmos é Fidel Castro. Personagem e história complexas, vejo Fidel como um revolucionário no início, que libertou Cuba de um governo oligárquico e serviente aos Estados Unidos, instaurando as bases de uma nação igualitária baseada num sonho socialista que, até certo ponto, pareceu possível. Mas é inegável que o revolucionário veio a se tornar um ditador, à frente de um governo a que se atribui a morte de mais de 12.000 pessoas, além da fuga de muitos milhares mais. A revolução, no fim, libertou Cuba de Tito Fulgêncio e do domínio americano, mas aprisionou os cubanos num regime que enaltece o coletivo mas restringe o indivíduo, tirando-lhe a liberdade de ir e vir e progredir. Essa mesma liberdade cerceada que foi a causa da derrocada de outros tantos regimes socialistas e - inevitavelmente - ditatoriais. A população de Cuba, hoje, possui alimento (racionado), segurança, educação e saúde de qualidade, graças à revolução de Fidel, mas as notícias que chegam não mostram o país arrasado pela perda de seu líder, nem festejando sua morte, mas sim um ambiente de silêncio e resignação, como quem respeita a importância do ele fez, ou como quem rumina a dúvida sobre o quão bom ou ruim foram os longos anos de poder de seu Comandante em Chefe.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Finados

Neste Dia de Finados, lembro com saudade dos meus que já se foram, em especial o meu Vô Juvenal, que neste ano completou 20 anos de partida ainda muito sentida. Meus avós Chico e Dona Zeca, tão presentes na minha infância. O meu Tio Reni, alegria em pessoa. Minha querida Tia Zefa e o sisudo Tio Joaquim. Alguns amigos também, que se foram numa curta e intensa passagem pela vida. Enfim, a memória deles os mantém vivos para mim, pelo que foram e ainda representam, como que lembrando o quanto é bom viver e pelo que vale ser lembrado. Fiquem em paz, meus queridos.

sábado, 15 de outubro de 2016

Dylan e a palavra

Sobre o Nobel ao Bob Dylan, nada mais oportuno. Não falo em relação ao próprio, de quem sei o quanto é cultuado como compositor e intérprete de uma obra referencial na música norte-americana, mas da qual não tenho maior intimidade e, na verdade, não está entre meus artistas prediletos. A oportunidade está em reconhecer que a literatura, como manifestação artística expressa em palavras, não está restrita ao formato do livro. Como negar a poesia escrita em versos de musicas, nas letras de Dylan e de outros tantos cantautores e letristas, como Vinicius, Chico, Cazuza, Renato Russo, Raul - só pra citar alguns brasileiros. Alguém vai dizer que as crônicas sociais expressas em tantos dos nossos sambas, por um Cartola, Adoniran ou um Noel, não são artísticas? E o que é a arte em palavras senão Literatura? Assim como esta, através dos tempos, teve o poder de desencadear transformações na sociedade e nos indivíduos, derrubando costumes, preconceitos e dogmas, instruindo e destruindo verdades preestabelecidas, também a palavra musicada o fez, e talvez sua contribuição para a cultura popular seja tão importante quanto a dos livros. Atualmente, quando se fala até na morte do livro - o que não acredito -, substituído pelos e-books, blogs, conteúdos virtuais escritos de toda ordem etc., a literatura segue sendo expressa em diferentes veículos e mídias que a ampliam, sem restringi-la a um único formato, libertando-a, como toda a arte deve existir e ser reconhecida. O Nobel de Dylan é o reconhecimento e a justa homenagem a tantos autores que colocaram suas palavras em letras de músicas, e nem por isso deixaram de fazer literatura ou são escritores menores. Afinal, a palavra é uma só...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O impeachment da Dilma

Sobre o impeachment, e sem entrar no mérito se houve ou não crime de responsabilidade - por não conhecer a fundo as circunstâncias técnicas das tais pedaladas e decretos orçamentários, desafiando algum amigo a me explicar por A mais B a respeito -, cabe perguntar a quem está indignado com o resultado: vocês esperavam mesmo que esse julgamento político fosse justo? Ora, como seria se se trata de um julgamento entre pares, com interesses contrários, em que não se exige isenção e imparcialidade? Só que esse tal julgamento político é a regra desde muito tempo em nosso sistema democrático, e inegavelmente seu procedimento foi cumprido com garantias asseguradas de defesa. Mas essa é a melhor regra? Provavelmente não, parecendo mais um parlamentarismo às avessas, em que formada a maioria se derruba o presidente por fundamentos de até menor relevância ou meramente formais, desde que amparado apoio popular (o que, no caso, não faltou). Mas vale perguntar, se o PT tivesse conseguido abrir impeachment contra o FHC, nas várias vezes em que tentou e não conseguiu por não reunir a maioria necessária, ele teria sido justo e imparcial em julgar como queria que a Dilma fosse julgada? Vestir o papel de vítima e mártir, quando convém, também faz parte do jogo político e é bem mais fácil que admitir os próprios erros...

sábado, 9 de julho de 2016

O ciclo da vida

A vida é um ciclo. Como um círculo, volta ao mesmo ponto de origem. Por isso, a representação geométrica da vida é o círculo, a esfera, sem início nem fim aparente, sem lado, sem ângulo nem desigualdades, sem oposições em si mesmo, onde qualquer ponto pode ser o início ou o fim - na verdade, o recomeço constante, o movimento próprio da vida em ir-se adiante, avançando. O círculo do átomo, da célula, da gema de ovo, do planeta, do embrião, da laranja, da retina, da órbita dos planetas. Por que o círculo, dentre tantas formas possíveis, senão a representação da perfeição com que a natureza se mostra? A forma perfeita de um caminho que volta ao mesmo ponto e ainda assim avança, evolui. Como o tempo que nos faz passar de filhos a pais e depois nos torna filhos de nossos filhos na velhice. A vida e a morte e o renascer em outra vida, outra dimensão, outra vez começar de novo. E dentro da vida vários ciclos, por que não? Curvas dentro dessa grande volta que damos levados pelo tempo, atravessando estações, idades contraditórias e, ainda assim, tão complementares, fases e humores para crescer e amadurecer, apaixonar-se, gozar as mais variadas sensações, endurecer com o trabalho, decidir sobre si mesmo, amar - se tiver sorte -, rumando sempre, do jeito que der, até o mesmo ponto de partida, onde chegaremos os mesmos que éramos quando partimos, só que mudados pelas experiências vividas no caminho. Um ciclo começa e outro termina, na minha vida - e na sua? -, como um recomeço, com as muitas possibilidades que só o círculo da vida nos pode proporcionar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Raica

Fui buscá-la filhote, num lugar onde hoje não saberia chegar, aqui no interior do município. Isso foi em início de 2006, dez anos atrás. Demos a ela o nome de Raica - a namorada do momento do Ronaldo Nazario. Desde então, foi nossa companheira de vida, de casa, de momentos passados juntos em nosso lar. Nós a vimos envelhecer, no rápido ciclo de vida dos cães, até chegar à velhice dos seus setenta anos pelo tempo dos homens.  Nessa terça-feira a perdemos para o câncer, que é comum a todas espécies. Perdemos um ser a quem amávamos, como se ama um bom amigo, após termos ganho sua companhia por esses anos. Descanse em paz, querida, porque todo ser que ama deve ser recompensado, seja pela memória dos que permanecem, seja pelo paraíso que merecem encontrar. Valeu, Raica!


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Impeachment

Aos de fora do país, fiquem sabendo que ontem foi um dia normal aqui. O comércio, empresas, repartições, escolas e bares funcionaram normalmente. A saída de Dilma já era esperada e ninguém saiu às ruas pra defendê-la, protestar contra o Temer ou comemorar, afora alguns militantes nas grandes cidades. O exército não saiu dos quartéis, nem houve quebra-quebra. A sensação geral é de um certo alívio pelo "final" desse processo (que ainda não acabou!) e expectativa pelo que vai ocorrer. Mas tem também um sentimento de que não dá pra esperar muita coisa de quem está assumindo e que nossa política não será melhor por causa deles. A volta de uma certa normalidade é o que mais se deseja...a tal governabilidade. Não houve golpe para quem entende que foram observadas todas as regras e prazos. Se a regra era o julgamento político, ela foi observada e com sobra de votos. Se a regra não é a melhor, isso é opinião que não muda a regra. Mas é evidente que além das pedaladas fiscais, o conjunto da obra pesou contra a presidente (crise econômica e desemprego, escândalos de corrupção envolvendo o PT, isolamento político etc). Enfim, hoje é outro dia e, como sempre, tudo poderá acontecer aqui no Brasil...

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Kristilayne



Irrompeu o salão do restaurante, chamando a atenção pela entrada desajeitada e abrupta, esbarrando em um garçom. Foi engraçado para os que o viram chegar assim, até que sacou uma arma de dentro do casaco largo e pediu alto pela atenção de todos. Os gritos iniciais foram logo sucedidos pelo silêncio dos espectadores, à espera do anúncio do propósito que trazia aquele homem armado até ali. Tão nervoso quanto os demais, ele custou a articular a primeira frase. Pediu, com voz hesitante, que todos permanecessem em seus lugares, com as mãos sobre a mesa e se mantivessem calmos. Seguiu-se uma pausa logo interrompida por um conviva mais ansioso que perguntou ao fundo: “O que você quer?”. “Cale a boca! Já vou explicar!”, respondeu contrariado o único sujeito em pé no meio do salão. “Eu estou aqui para realizar a minha vingança e para que todo o mundo saiba quem é a culpada pelo que vou fazer”. O cliente ao fundo voltou a se manifestar: “E o que você vai fazer?”. A nova intervenção deixou o malfeitor ainda mais contrariado. “Calma, deixa eu falar, pô!”. Nova pausa angustiante. “Eu vou matar a todos vocês por causa dela!”. Seguiram-se mais gritos, choros incontidos, um ou outro desmaio. Calmamente, o senhor ao fundo do salão questionou: “Mas ela quem, tchê?”. “Ela, a Kristilayne! Vou matar todos aqui pra que ela carregue pra sempre a culpa pela morte de vocês. Porque ela me deixou e acabou com a minha vida!”. Nesse momento, cessaram os gritos, os choros e lamentos. O silêncio que se instaurou já não era de pavor, mas de uma certa incredulidade. Numa espécie de sintonia telepática, todos ali perceberam que o homem armado não era um assaltante perigoso, terrorista ou um psicopata. Deram-se conta que o homem, coitado, estava desesperado por ter levado um pé na bunda, e que eles, sem nada com isso, corriam o risco de levar um tiro por conta do desamor de uma tal de Kristilayne – como se escrevia esse nome foi a terceira coisa que passou pela cabeça de todos. O sujeito do fundo não se conteve e falou com evidente ironia: “Meu amigo, tenha dó, que você esteja passando por um mal momento a gente está vendo. Que o amor leva qualquer um a cometer loucuras, todo o mundo sabe. Agora, que você venha até aqui nos dar um susto desses, com essa arma de brinquedo por causa de uma tal de ‘Cris alguma coisa’, sinceramente, é uma baita sacanagem! Vá encher a cara e não encha o nosso saco”. Resignado, o homem baixou a cabeça, virou-se e saiu lentamente do restaurante, sob o olhar incrédulo de todos. Moral da história: todo grande gesto exige uma boa causa – ou uma arma de verdade.