domingo, 26 de julho de 2015

Dona Ivone e seus 90 anos

Hoje comemoramos os 90 anos de idade da nossa querida Dona Ivone, ou Vó Ivone, como é carinhosamente chamada e por também me considerar um neto acolhido por seu carinho nesses tantos anos de convívio. O presente que a família lhe deu foi um livro com os depoimentos de cada um sobre o lugar em que ela e o saudoso marido Dilon viveram e tiveram seus filhos, viram chegar seus netos e bisnetos, onde muitos deles resolveram construir suas casas e que costuma reunir a todos em cada domingo. O presente é simbólico também, não apenas por contar as lembranças vividas por tantos dali - inclusive eu -, mas porque o livro representa muito da vida da Dona Ivone, que primeiro dedicou sua vida ao magistério e depois consagrou-se como uma poetisa, cujos temas recorrentes sempre foram a sua Borges de Medeiros, a casa e a família. Temas esses que, embora possam parecer muito particulares, ela universalizou em linguagem poética. Aos 90 anos, ninguém chega sem ter sofrido a perda de pessoas amadas e sem penar pelas debilidades do corpo. Mas assistindo hoje a Dona Ivone emocionar-se, junto a seus familiares, recebendo deles o seu presente tão esperado - o livro feito pra ela! -, percebo o quanto a vida lhe retribuiu daquilo o que ela mais deu a todos com quem conviveu: o seu amor. Um amor transmitido para filhos, netos, bisnetos, agregados, amigos e que, graças a seus livros de poemas, está ao alcance de quem quiser compartilhá-lo com ela. Feliz aniversário, Dona Ivone!




* Livro: "Borges de Medeiros 378" (p.s.: orgulho de ter fotos minhas ilustrando a capa e trechos do livro).

domingo, 19 de julho de 2015

Imigrantes somos

Uma parte de mim veio de Málaga, na Espanha, em 1892, trazida de navio pelos meus bisavôs por parte de mãe. Outra parte veio de portugueses que vieram antes, de origem imprecisa, por parte de meus avôs paterno e materno. Uma parte veio da miscigenação de brancos portugueses com índios nativos, com minha avó por parte de pai. Uma parte ainda veio de um bisavô que lutou na revolução de 1930 e de quem ainda tenho vaga lembrança. Outra parte, de meu avô comerciante, que veio do interior do município se estabelecer com um comércio de alimentos e armarinho na sede, trazendo a família - dentre eles meu pai -, que gostava de política e jogava cartas comigo. Outra parte veio de outro avô comerciante, que começou estofador e chegou a ser um grande lojista local, homem muito correto e pai da minha mãe, que gostava de fazer graça e sabia falar sério. Uma parte também veio de meu tio que gostava de bixos e de cultivar hortas, além de colocar apelidos em mim e nos outros. Outra parte veio de outro tio, que exercia o sorriso mais do que todos, com quem sempre queríamos estar e que gostava de aventurar-se pelas estradas em seu motor-home. Uma parte veio do homem mais bondoso que já conheci e o que mais amarei, o qual me apresentou o ofício que decidi seguir e a música que adotei, meu pai. Outra parte veio da precaução de uma mãe dona de todos os medos do mundo e amorosa na mesma proporção. Uma parte veio de um tio, ou de um tio-avô, ou de ambos, boêmios natos e chegados a um trago. Outra parte veio de um primo do meu pai, que tinha a música na alma e a fez sua companheira de vida. Outra parte veio de uma prima que viveu o amor genuíno por sobre as barreiras morais que a sociedade impõe ou com as quais defende suas aparências. Outra parte veio de tantos parentes, mais ou menos próximos, de espírito cigano e gosto por conhecer o mundo. Outra parte não veio no sangue, mas sim pelo exemplo, de alguns líderes naturais e profissionais distintos; de homens e mulheres valorosos e amigos valiosos. Outra parte veio à esteira da força transformadora do amor, trazida por uma mulher. com quem seguimos nos transformando um ao outro. Outra parte veio dos livros, da natureza, dos erros e acertos, das perdas e ganhos, das lutas e danos, dos nossos e de estranhos, vivos e mortos, de tudo o que vem e vai nesse constante movimento. No fim e ao cabo, somos todos imigrantes de nós mesmos. Em nós mesmos, imigrantes somos...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Feliz aniversário, pai!

Hoje meu pai faz 70 anos de idade. E me entristeço ao pensar que nos meus 70 é provável que ele não estará mais próximo a mim. Tenho a mais absoluta certeza de que se todos tivessem um pai como o meu, o mundo seria um lugar bem melhor. Mas nunca foi fácil dizer isso a ele, na verdade, não lembro de ter dito - o que lamento -, muito embora sempre procurei me fazer presente, dar meu carinho e atenção. Mesmo assim, me sinto devedor de retribuir o amor que recebo dele. Um amor queconheci na minha infância, na figura do homem que exercia a paternidade com o cuidado de um amigo e o gosto de estar junto ao filho, nas brincadeiras de casa, cantando juntos ao violão, mostrando o que é certo e o errado, sendo firme sempre que precisava ser. Um amor que reconheci ao amadurecer, por ele acreditar na capacidade dos filhos escolherem seus próprios caminhos com liberdade e responsabilidade, e mostrando, com seu exemplo, o valor de pertencer a uma família harmoniosa, a importância do caráter, do senso de comunidade, da espiritualidade e, também, de aproveitar-se a vida. Um homem que vive para trabalhar honestamente, desfrutar de seus pequenos prazeres e, acima de tudo, dedicar-se a sua família, dando seu amor e o recebendo de volta, multiplicado. Um homem feliz! Parabéns, meu pai, pelo teu aniversário e meu muito obrigado por tudo o que a tua vida representa pra nós.







domingo, 12 de julho de 2015

Viajantes solitários

Recentemente, nessa janela para a vida dos outros que chamamos de rede social, acompanhei - meio sem querer -, dois conhecidos que, ao mesmo tempo, viajavam sozinhos: um por lugares glamourosos da Europa, outro pelo paraíso natural da Indonésia. Mesmo distantes um do outro e sem se conhecerem, posavam igualmente em suas "selfies" junto a monumentos e belas paisagens. Confesso que achei triste aquilo de viajar sozinho e, sobretudo, mostrar-se sozinho, como se quisessem dividir com os que estavam aqui as sensações de estar nesses lugares. Nunca gostei de viajar em grupo, porque acredito que se perde muito da liberdade de improvisar e de seguir seus próprios interesses de viagem. Passa-se mais tempo negociando do que desfrutando do lugar, numa tensão constante em saber se as decisões tomadas agradaram aos outros ou não dar bandeira que desagradaram a você mesmo. Mas sou daqueles que consideram alguns bons companheiros, ou ao menos uma companhia - no meu caso, companheira - fundamental. Assim como as fotos não reproduzem a emoção de estar em tal lugar ou em dada situação, acredito que uma viagem só é completa quando compartilhada, não à distância, mas junto de alguém. Compartilha-se o êxtase, o medo, a ansiedade, a aventura, a experiência de viver um tempo num lugar que não é o nosso e do qual só nos apossamos dos momentos vividos ali e levados na memória. Compartilha-se o cansaço de um dia trilhado numa cidade incrível. Uma comida, boa ou estranha - sim, aquele sanduba de buxo no mercado público de Florença. O brinde na hora de relaxar, ao final da tarde, numa barra de bar, olhando nos olhos do outro o brilho de satisfação em estar ali, aventurando-se. Enfim, por mais que eu goste de passar meus momentos sozinho, penso que viajar solitariamente é uma triste forma de exílio...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Viva Cazuza!


Ao escolher e reproduzir aqui uns versos do Cazuza, como uma pequena homenagem pelos 25 anos de sua partida, fico em dúvida entre aqueles que mais demonstram sua coragem transgressora, ou os que revelam a ótima ironia do Poeta, mas acabo por me render aos que falam do amor - ponto forte de sua obra que segue sendo cantada e, exageradamente, viva! Viva Cazuza!

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo
com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo o amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia"


domingo, 5 de julho de 2015

Lenine

Foto: Murilo de Souza

Assistimos na última sexta-feira (03/07), no Bar Opinião, ao show do Lenine de lançamento de seu disco mais recente "Carbono". Além de impressionado pela força do show em seu conjunto - banda, atuação de palco e repertório -, foi principalmente o poder das letras desse cantautor que me tocaram. Não que eu já não conhecesse e admirasse o trabalho de composição do Lenine, mas assistindo ele a interpretar suas canções da forma como o faz parece que torna a mensagem de cada verso muito mais eloquente.

Deixo registrado aqui no blog a letra de uma canção que admiro em especial, por ser a antítese de uma outra música, de um outro intérprete famoso, que se tornou um mantra para muitos brasileiros, em que eu prefiro ficar com a versão - e o sentido! - da música do Lenine.

Deixa a vida me levar? NÃO! Quem leva a vida sou eu.

Quem leva a vida sou eu (Lenine)

Não deixo a vida me levar
Levo o que vale do viver

Um sorriso pleno, um amor sereno
E tudo o que o tempo me der

A vida é pra se louvar
Pra se louvar a vida é

Vem o que vier, vale o que valer
Vale o que valer, vem o que vier

Um caminho raro, um coração claro
Por todo o tempo que houver

Leva, valer, louvar, haver
Viver se houver valor a vida

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu
Não deixo a vida me levar

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu