terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2015

2015 está acabando...enfim! Que ano foi esse!? Um ano para desistir do Brasil, após um breve sonho de primeiro mundo. Temer a violência cada vez mais próxima. Conhecer a corrupção em escala até então nunca vista no país. Ver um governo eleito alcançar níveis históricos de impopularidade nos primeiros dias do segundo mandato, perdido no meio de crises econômica e política sem precedentes. E no mundo? O terrorismo se difundindo em ações fatais como a do Bataclan em Paris. As centenas de imigrantes árabes mortos ao tentar fugir e dos milhares que invadiram a Europa atrás de um lugar para viver em paz. Um ano que parece ter custado a passar, ante a sequência - quase diária - de péssimas notícias. Pessoalmente, não tenho o que reclamar. Apesar da inegável crise, foi um ano de bastante trabalho, novos clientes, uma viagem prazerosa, bons shows e momentos de diversão. Mas também foi um ano de apreensão e temores constantes, dentro desse redemoinho de fatos sociais que envolveram a nós, brasileiros, o que me traz algum alívio por seu final. Não que eu acredite num 2016 muito diferente. Ocorre que já me permito uma perspectiva mais otimista, fundada naquilo que já foi vivido e sofrido em 2015, estando como que melhor preparado para seguir em frente. Talvez, o melhor mesmo seja relevar as grandes preocupações com o futuro do país, enaltecendo a saúde e o trabalho que temos, nossas relações pessoais e os bons momentos que criamos, alcançando uma certa simplicidade de viver, sem alienação - é claro! -, mas também sem nos deixar afetar tanto pelo que não está em nosso controle, nessa realidade tão complexa chamada "Brasil". Seja bem vindo 2016!

*aos amigos do blog, meus mais sinceros votos de um novo ano de muitas e muitas alegrias!

domingo, 25 de outubro de 2015

As mentiras consensuais

O ser humano tende a pensar de maneira maniqueísta, separando as coisas em boas e ruins, como um ideal de simplificação pragmática diante de uma realidade complexa. Essa forma de pensar acabou se transferindo, ao longo dos tempos, para as relações interpessoais, consolidando certos dogmas ou convenções que, apesar dos 2015 anos de Era Cristã, ainda não sabemos bem se são próprios de nossa espécie ou de como vivemos em sociedade. Casar, trabalhar, gerar filhos, triunfar - é o que o senso comum espera de cada um. Mas a maioria de nós passa a vida sob a tensão entre atender a essas convenções sociais ou a nossos desejos e impulsos individuais, nem sempre harmônicos entre si. Assim seguimos, sendo resultado de nossas vontades em combate às vontades dos outros.

A propósito disso, e de forma bem melhor redigida, transcrevo o texto abaixo da Martha Medeiros, de quem não sou propriamente um fã ou leitor assíduo, mas a quem admiro por este e outros escritos.



MENTIRAS CONSENSUAIS (Martha Medeiros)

Existem pessoas felizes e pessoas infelizes, e todas elas se questionam.
Umas bebem champanhe e outras água da torneira, e se fazem as mesmas indagações. Se existe uma coisa que nos unifica são as dúvidas que trazemos dentro. São pequenas angústias que se manifestam silenciosamente, angústias que não gritam, ou gritam somatizadas em úlceras, insônias e depressões. Angústias diante das mentiras consensuais.
 
O que são mentiras consensuais? São aquelas que todo mundo topou passar adiante como se fosse verdade. Aquelas que ouvimos de nossos pais, eles de nossos avós, e que automaticamente passamos para nossos filhos, colaborando assim para o bom andamento do mundo, para uma sanidade comum. O amor, o sentimento mais nobre e vulcânico que há, tornou-se a maior vítima deste consenso.

Mentiras consensuais: o amor não acaba, quem ama quer filhos, amor de uma noite só não é amor, o amor requer vida partilhada, amor entre pessoas do mesmo sexo é antinatural.
Tudo mentira! O amor, como todo sentimento, é livre. É arredio a frases feitas, debocha das regras que tentam lhe impor. Esta meia dúzia de coordenadas instituídas como verdades fazem com que muitas pessoas achem que estejam amando errado, quando estão simplesmente amando. Amando pessoas mais jovens ou mais velhas ou do mesmo sexo ou amando pouco ou amando com exagero, amando um homem casado ou uma mulher bandida ou platonicamente, amando e ganhando, todos eles, a alcunha de insanos, como se pudéssemos controlar o sentimento. O amor é dono dele mesmo, somos apenas seu hospedeiro.
 
Há outros consensos geradores de angústia: o mito da maternidade, a necessidade de um Deus, a juventude eterna. Sobem e descem de ônibus milhares de passageiros que parecem iguais entre si, porém há entre eles os que não gostam de crianças, os que nunca rezaram, os que estão muito satisfeitos com suas rugas e gorduras, os que não gostam de festas e viagens, os que odeiam futebol, os que viverão até os cem anos fumando, os que conversam telepaticamente com extraterrestres, os ermitões, enfim, os desajustados de um mundo que só oferece um molde.

Todos nós, que estamos quites com as verdades concordadas, guardamos, lá no fundo, algo que nos perturba, que nos convida para o exílio, que revela nossa porção despatriada. É a parte de nós que aceita a existência das mentiras consensuais, entende que é melhor viver de acordo com o estabelecido, mas que, no íntimo, não consegue dizer amém.

sábado, 17 de outubro de 2015

Diário de viagem Espanha-Portugal 2015

Primeiro dia: 29-30/09/15 - Porto Alegre/Lisboa/Barcelona
- saída de POA às 20:00 no vôo TAP direto a Lisboa
- chegada a Lisboa às 10:30 do dia 30/09 (quarta-feira) e conexão para Barcelona
- chegada a Barcelona às 16:00 - encontro com o Tom no aeroporto e carona até o apartamento dele e da Maria em Badalona (praia e subúrbio de Barcelona, a 10 minutos do centro de metro)
- passeio rápido pela praia e centro de Badalona - metro para Barcelonada até a Praça Catalunia
- encontro com a Maria e janta de tapas e vinho no Restaurante El Nacional (Paseo di Gracia) para comemoração do aniversário da Cacá
- final de noite com vinho no pub El Solterio

Segundo dia: 01/10/15 - Barcelona
- metro até a estação Sagrada Família - visita externa à catedral (ainda) em obras, entre uma multidão de turistas
- caminhada até o Sant Pau (antigo complexo hospitalar de prédios e jardins considerado marco do modernismo catalão, que foi restaurado e reaberto para visitação em 2014)
- metro até a estação Catalunia - almoço no Restaurante En Ville
- caminhada pelo Bairro Gótigo e Rambla até o Porto Olímpico
- cerveja no pátio da Plaza Real
- chá com música ao vivo no El Solterio
- metro até Badalona e janta na casa do Tom e da Maria

Terceiro dia: 02/10/15 - Barcelona/Valencia
- metro desde Badalona até a Estação de Saint, onde tomamos o trem para Valencia às 12:00
- chegada em Valencia às 15:30 (Estación de Nord) e caminhada até o Hotel Mediterraneo (centro - Bancorbras)
- tapas na Bodega Antonio Manuel - caminhada até a Playa del Ayuntamiento, Ciutat Vella, Plaza de la Reina, torre e ponto dos Serranos
- janta na bodega Vino Tinto
- provamos a famosa água de Valencia no bar de um hostel na Plaza del Ayuntamiento

Quarto dia: 03/10/15 - Valencia
- passeio até a Cidade das Artes e das Ciências e entrada no Oceanográfico para conhecer os aquários e show de golfinhos
- jantamos a verdadeira paella valenciana (com frango e coelho) no Restaurante Taska la Coveta, no centro histórico

Quinto dia: 04/10/15 - Valencia/Granada
- metro até o aeroporto para pegar o carro alugado (Seat Ibiza) e partida rumo a Granada, via Parque Nacional de Serra Nevada
- almoço em parador no caminho (entre o nada e lugar nenhum)
- chegada à tarde em Granada após +/- 500km - check in no hotel Granada Center (centro - Booking.com)
- passeio por Granada (centro histórico) e janta de tapas, vinhos e afins na Taberna Masquevino (cuzcuz com frango ao molho curry)

Sexto dia: 05/10/15 - Granada/Almuñecar/Malaga/Marbella/San Pedro Alcantara
- café da manhã com media com tomate espargido no pão com queijo e azeite de oliva (!), seguido de passeio  pelo Bairro Albaicín em Granada, com seus mirantes com vista para a Alhambra e Generalité
- saída de Granada rumo a Almuñecar (litoral), onde almoçamos
- chegada em Málaga, com visita ao Alcazaba e ao centro histórico, até o Museu Picasso (nascido na cidade), onde não entramos por já estar fechando...café na praça da catedral e estrada!
- chegada ao balneário de Marbella ao pôr do sol, com passeio pela orla e unas cañas em bar à beira mar (*caña em espanhol é um copo de cerveja entre 300 e 500 ml)
- junto a Marbella, chegamos à noite em San Pedro Alcantara onde nos hospedamos no Hotel Doña Catalina (Booking.com)
- tapas e cañas em bar frequentado apenas por moradores locais, próximo ao hotel

Sétimo dia: 06/10/15 - Puerto Banús/Ronda/Gibraltar/Cadiz
- café da manhã no hotel e check-out
- visita ao balneário e marina de Puerto Banús
- subimos a serra até Ronda, onde passeamos pelos arredores da "Ponte Nova", que interliga a cidade nova à velha - ambas antiquíssimas
- almoço em Ronda e partida para Gilbraltar pela serra, passando pelos pueblos blancos cravados nas montanhas
- descida da serra e chegada a Gibraltar, sem entrar na área de domínio inglês para evitar passar na imigração
- tempo à beira mar na areia da praia, admirando o mar e a fila de grandes navios passando pelo estreito de Gibraltar
- estrada pra Cadiz e chegada ao final da tarde - hospedagem no Hotel Boutique Convento Cadiz (quarto Sta Maria Magdalena), sendo que o convento ainda funciona no local, anexo à Catedral de Cadiz (Booking.com)
- passeio e janta no centro histórico de Cadiz

Oitavo dia: 07/10/15 - Cadiz/Jerez de la Frontera/Sevilha
- feriado em Cadiz pelo dia da padroeira da cidade Nossa Senhora do Rosario, com muito movimento de fiéis na cidade e na Igreja junto ao Convento (anexa ao hotel)
- passeio pela orla de Cadiz, até a Praia da Caleta e Castelos de Sta Catalina e San Sebastian)
- almoço em Cádiz, check-out no hotel e estrada
- parada em Jerez de la Frontera, no centro, para provar o famoso Xerez (bebida semelhante a licor com variações do mais seco ao mais doce - recomendo: Xerez Fino da marca Tio Pepe)
- estrada até Sevilha e check-in no Hotel Best Western Cervantes (Bancorbras)
- passeio a pé até a Catedral e Bairro de Santa Cruz, onde jantamos tapas, seguindo até a Plaza del Salvador para o último brinde da noite nos bares com mesas na rua

Nono dia: 08/10/15 - Sevilha
- passeio pelos prédios e jardins do Real Alcazár
- passeio de barco pelo Rio Guadalquivir (1 hora) a partir da Torre del Oro
- almoço e caminhada até a Plaza de España e Parque Maria Luisa
- visita guiada à Plaza de Toros (La Real Maestranza)
- banho no hotel e show de Flamenco no Palazio Andaluz
- janta de tapas no Bairro Santa Cruz
- último brinde na Plaza San Salvador

Décimo dia: 09/10/15 - Sevilha/Carmona/Lisboa
- passeio pelo centro histórico de Sevilha para compra de lembranças pra família
- check-out no hotel e ida de carro para a cidade de Carmona, onde almoçamos em seu belo Parador - visita ao centro histórico da cidade
- retorno ao aeroporto de Sevilha para entrega do carro e vôo para Lisboa (Sevilha-Madrid-Lisboa) pela Iberia
- chegada em Lisboa às 23:00 e taxi para o Turim Iberia Hotel (Bancorbras)

Décimo primeiro dia: 10/10/15 - Lisboa
- amanhecer com chuva em Lisboa - metro até a Estação do Oriente no Parque das Nações (complexo construído para a Expo 98), com passeio pela orla no Telecabine
- almoço no Mercado da Ribeira, onde conhecemos mãe e filha cariocas e tivemos uma ótima conversa
- passeio pelos bairros do Chiado (incluindo a Cafeteria A Brasileira, preferida de Fernando Pessoa) e Alfama
- janta de bacalhau típico com vinho tinto português no excelente Restaurante Laurentina (reserve antes!)

Décimo segundo dia: 11/10/15 - Lisboa/Porto Alegre
- café da manhã no hotel e táxi até o aeroporto
- embarque em Lisboa às 11:20 e chegada em Porto Alegre às 18:10 (10:30 de vôo).

(fotos em breve)

domingo, 6 de setembro de 2015

Imigrar ou mudar?



Semana difícil a que passou. Notícias ruins nos bombardearam de todos os lados. Crise econômica agravando-se no Estado e no País, manifestações e violência nas ruas da capital e do interior, perspectivas pouco animadoras que já condenaram até o próximo ano. Todo esse ambiente que vem marcando 2015 como um ano de incertezas e de perda do rumo do Brasil, faz surgir em muitos – em mim também – a dúvida em relação ao nosso futuro na terra brasilis. Somos um povo com o curioso “complexo de superioridade”, por nos acharmos melhores que os demais, sem qualquer razão para isso. Talvez seja culpa do futebol do Pelé e do Garrincha, mas a verdade é que não somos os melhores, nem os mais corretos, capazes, muito menos os mais educados, e mesmo assim temos a arrogância de achar que não temos que copiar os bons exemplos de ninguém e que as coisas naturalmente acontecerão da melhor maneira para nós. A tal “Pátria educadora” não é nada mais que um bom slogan de um governo incompetente para implementar a revolução educacional de que tanto necessitamos. A crise econômica certamente é muito mais política do que propriamente econômica. No entanto, demonstra bem o quão rápido a incapacidade de alguns governantes pode jogar uma nação na lona. Diante de um momento tão difícil e de um porvir obscuro, até mesmo o caminho do aeroporto passa a ser uma alternativa a ser considerada. Buscar um país civilizado para viver e trabalhar, por que não? Migrar para a condição de estrangeiro em outro lugar, porém, nos remete a considerar a situação daqueles tantos que estão buscando essa saída por questão de sobrevivência, invadindo a Europa quando conseguem alcançar a praia ou pular o muro, deixando outros tantos sem vida no mar ou sufocados num caminhão. Ao chegarem, ainda tem que enfrentar a repulsa dos locais que não querem recebê-los, seja por medo ou por insegurança quanto a seu próprio bem estar. Estes imigrantes, provavelmente, não tiveram oportunidade para mudar a situação dos lugares dos quais fugiram, fugindo por isso mesmo. Nós, bem ou mal, ainda podemos agir para tentar mudar e melhorar a nossa própria situação, nas diversas esferas de atuação que nos são permitidas ou alcançáveis, com maior ou menor intensidade, a partir das nossas casas, ruas, no trabalho, na comunidade, na região e no país, exercendo um voto consciente, participando de movimentos civis organizados ou mesmo assumindo cargos políticos. Da minha parte, é o que farei: antes de arrumar a mala para deixar esse país, vou seguir tentando melhorá-lo.

domingo, 23 de agosto de 2015

Diferentes e indiferentes

Durante 7 anos, colaborei na realização da Moenda da Canção, o festival de música que ocorre em minha cidade e que neste ano celebrou sua 29a edição. Agora, à distância, observei o enorme esforço de um amigo que segue dando sua colaboração na produção do evento, juntamente com outros poucos "moendeiros" abnegados em manter vivo o nosso festival. Brinquei com ele que o via como um herói pelo que estava fazendo, e que não era bom ser herói, pois o que os distingue não é algum superpoder, mas o sacrifício pessoal que fazem pelos outros. O meu amigo concordou e disse que não queria ser herói. Apenas gostaria de poder contar com mais pessoas que colaborassem em fazer o evento acontecer, de uma maneira mais fácil para todos os envolvidos. Esse amigo meu é do tipo que faz a diferença. Também vivi isso na época em que fui voluntário na Moenda, sentindo-me realizado ao ver o festival acontecer e me considerar parte responsável por aquilo, apesar de todo o esforço empreendido. Afastei-me para ser voluntário de outras causas e para poder dedicar-me a projetos pessoais, provavelmente fazendo, hoje, menos diferença do que fiz naquele tempo. Uma dessas grandes classificações reducionistas da humanidade pode ser entre os diferentes e os indiferentes: aqueles, por fazerem a diferença no mundo pelo que proporcionam aos outros; estes, pelo que são indiferentes ao mundo e aos outros e, por isso, estes também lhes serem indiferentes. Todos podemos ser diferentes e fazer a diferença, embora seja bem mais fácil ser indiferente, mesmo quando chegamos a nos emocionar com o exemplo de alguém que, gratuitamente, apresenta-se como instrumento de transformação de outras vidas ou engajado a uma bela causa. No fim, tudo se resume a tomar a decisão e a atitude de ser diferente, ao invés de continuar fazendo parte da maioria indiferente ao que está fora de seu próprio universo particular. Por certo, se fôssemos todos diferentes, o mundo não precisaria de heróis...

domingo, 26 de julho de 2015

Dona Ivone e seus 90 anos

Hoje comemoramos os 90 anos de idade da nossa querida Dona Ivone, ou Vó Ivone, como é carinhosamente chamada e por também me considerar um neto acolhido por seu carinho nesses tantos anos de convívio. O presente que a família lhe deu foi um livro com os depoimentos de cada um sobre o lugar em que ela e o saudoso marido Dilon viveram e tiveram seus filhos, viram chegar seus netos e bisnetos, onde muitos deles resolveram construir suas casas e que costuma reunir a todos em cada domingo. O presente é simbólico também, não apenas por contar as lembranças vividas por tantos dali - inclusive eu -, mas porque o livro representa muito da vida da Dona Ivone, que primeiro dedicou sua vida ao magistério e depois consagrou-se como uma poetisa, cujos temas recorrentes sempre foram a sua Borges de Medeiros, a casa e a família. Temas esses que, embora possam parecer muito particulares, ela universalizou em linguagem poética. Aos 90 anos, ninguém chega sem ter sofrido a perda de pessoas amadas e sem penar pelas debilidades do corpo. Mas assistindo hoje a Dona Ivone emocionar-se, junto a seus familiares, recebendo deles o seu presente tão esperado - o livro feito pra ela! -, percebo o quanto a vida lhe retribuiu daquilo o que ela mais deu a todos com quem conviveu: o seu amor. Um amor transmitido para filhos, netos, bisnetos, agregados, amigos e que, graças a seus livros de poemas, está ao alcance de quem quiser compartilhá-lo com ela. Feliz aniversário, Dona Ivone!




* Livro: "Borges de Medeiros 378" (p.s.: orgulho de ter fotos minhas ilustrando a capa e trechos do livro).

domingo, 19 de julho de 2015

Imigrantes somos

Uma parte de mim veio de Málaga, na Espanha, em 1892, trazida de navio pelos meus bisavôs por parte de mãe. Outra parte veio de portugueses que vieram antes, de origem imprecisa, por parte de meus avôs paterno e materno. Uma parte veio da miscigenação de brancos portugueses com índios nativos, com minha avó por parte de pai. Uma parte ainda veio de um bisavô que lutou na revolução de 1930 e de quem ainda tenho vaga lembrança. Outra parte, de meu avô comerciante, que veio do interior do município se estabelecer com um comércio de alimentos e armarinho na sede, trazendo a família - dentre eles meu pai -, que gostava de política e jogava cartas comigo. Outra parte veio de outro avô comerciante, que começou estofador e chegou a ser um grande lojista local, homem muito correto e pai da minha mãe, que gostava de fazer graça e sabia falar sério. Uma parte também veio de meu tio que gostava de bixos e de cultivar hortas, além de colocar apelidos em mim e nos outros. Outra parte veio de outro tio, que exercia o sorriso mais do que todos, com quem sempre queríamos estar e que gostava de aventurar-se pelas estradas em seu motor-home. Uma parte veio do homem mais bondoso que já conheci e o que mais amarei, o qual me apresentou o ofício que decidi seguir e a música que adotei, meu pai. Outra parte veio da precaução de uma mãe dona de todos os medos do mundo e amorosa na mesma proporção. Uma parte veio de um tio, ou de um tio-avô, ou de ambos, boêmios natos e chegados a um trago. Outra parte veio de um primo do meu pai, que tinha a música na alma e a fez sua companheira de vida. Outra parte veio de uma prima que viveu o amor genuíno por sobre as barreiras morais que a sociedade impõe ou com as quais defende suas aparências. Outra parte veio de tantos parentes, mais ou menos próximos, de espírito cigano e gosto por conhecer o mundo. Outra parte não veio no sangue, mas sim pelo exemplo, de alguns líderes naturais e profissionais distintos; de homens e mulheres valorosos e amigos valiosos. Outra parte veio à esteira da força transformadora do amor, trazida por uma mulher. com quem seguimos nos transformando um ao outro. Outra parte veio dos livros, da natureza, dos erros e acertos, das perdas e ganhos, das lutas e danos, dos nossos e de estranhos, vivos e mortos, de tudo o que vem e vai nesse constante movimento. No fim e ao cabo, somos todos imigrantes de nós mesmos. Em nós mesmos, imigrantes somos...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Feliz aniversário, pai!

Hoje meu pai faz 70 anos de idade. E me entristeço ao pensar que nos meus 70 é provável que ele não estará mais próximo a mim. Tenho a mais absoluta certeza de que se todos tivessem um pai como o meu, o mundo seria um lugar bem melhor. Mas nunca foi fácil dizer isso a ele, na verdade, não lembro de ter dito - o que lamento -, muito embora sempre procurei me fazer presente, dar meu carinho e atenção. Mesmo assim, me sinto devedor de retribuir o amor que recebo dele. Um amor queconheci na minha infância, na figura do homem que exercia a paternidade com o cuidado de um amigo e o gosto de estar junto ao filho, nas brincadeiras de casa, cantando juntos ao violão, mostrando o que é certo e o errado, sendo firme sempre que precisava ser. Um amor que reconheci ao amadurecer, por ele acreditar na capacidade dos filhos escolherem seus próprios caminhos com liberdade e responsabilidade, e mostrando, com seu exemplo, o valor de pertencer a uma família harmoniosa, a importância do caráter, do senso de comunidade, da espiritualidade e, também, de aproveitar-se a vida. Um homem que vive para trabalhar honestamente, desfrutar de seus pequenos prazeres e, acima de tudo, dedicar-se a sua família, dando seu amor e o recebendo de volta, multiplicado. Um homem feliz! Parabéns, meu pai, pelo teu aniversário e meu muito obrigado por tudo o que a tua vida representa pra nós.







domingo, 12 de julho de 2015

Viajantes solitários

Recentemente, nessa janela para a vida dos outros que chamamos de rede social, acompanhei - meio sem querer -, dois conhecidos que, ao mesmo tempo, viajavam sozinhos: um por lugares glamourosos da Europa, outro pelo paraíso natural da Indonésia. Mesmo distantes um do outro e sem se conhecerem, posavam igualmente em suas "selfies" junto a monumentos e belas paisagens. Confesso que achei triste aquilo de viajar sozinho e, sobretudo, mostrar-se sozinho, como se quisessem dividir com os que estavam aqui as sensações de estar nesses lugares. Nunca gostei de viajar em grupo, porque acredito que se perde muito da liberdade de improvisar e de seguir seus próprios interesses de viagem. Passa-se mais tempo negociando do que desfrutando do lugar, numa tensão constante em saber se as decisões tomadas agradaram aos outros ou não dar bandeira que desagradaram a você mesmo. Mas sou daqueles que consideram alguns bons companheiros, ou ao menos uma companhia - no meu caso, companheira - fundamental. Assim como as fotos não reproduzem a emoção de estar em tal lugar ou em dada situação, acredito que uma viagem só é completa quando compartilhada, não à distância, mas junto de alguém. Compartilha-se o êxtase, o medo, a ansiedade, a aventura, a experiência de viver um tempo num lugar que não é o nosso e do qual só nos apossamos dos momentos vividos ali e levados na memória. Compartilha-se o cansaço de um dia trilhado numa cidade incrível. Uma comida, boa ou estranha - sim, aquele sanduba de buxo no mercado público de Florença. O brinde na hora de relaxar, ao final da tarde, numa barra de bar, olhando nos olhos do outro o brilho de satisfação em estar ali, aventurando-se. Enfim, por mais que eu goste de passar meus momentos sozinho, penso que viajar solitariamente é uma triste forma de exílio...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Viva Cazuza!


Ao escolher e reproduzir aqui uns versos do Cazuza, como uma pequena homenagem pelos 25 anos de sua partida, fico em dúvida entre aqueles que mais demonstram sua coragem transgressora, ou os que revelam a ótima ironia do Poeta, mas acabo por me render aos que falam do amor - ponto forte de sua obra que segue sendo cantada e, exageradamente, viva! Viva Cazuza!

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo
com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo o amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia"


domingo, 5 de julho de 2015

Lenine

Foto: Murilo de Souza

Assistimos na última sexta-feira (03/07), no Bar Opinião, ao show do Lenine de lançamento de seu disco mais recente "Carbono". Além de impressionado pela força do show em seu conjunto - banda, atuação de palco e repertório -, foi principalmente o poder das letras desse cantautor que me tocaram. Não que eu já não conhecesse e admirasse o trabalho de composição do Lenine, mas assistindo ele a interpretar suas canções da forma como o faz parece que torna a mensagem de cada verso muito mais eloquente.

Deixo registrado aqui no blog a letra de uma canção que admiro em especial, por ser a antítese de uma outra música, de um outro intérprete famoso, que se tornou um mantra para muitos brasileiros, em que eu prefiro ficar com a versão - e o sentido! - da música do Lenine.

Deixa a vida me levar? NÃO! Quem leva a vida sou eu.

Quem leva a vida sou eu (Lenine)

Não deixo a vida me levar
Levo o que vale do viver

Um sorriso pleno, um amor sereno
E tudo o que o tempo me der

A vida é pra se louvar
Pra se louvar a vida é

Vem o que vier, vale o que valer
Vale o que valer, vem o que vier

Um caminho raro, um coração claro
Por todo o tempo que houver

Leva, valer, louvar, haver
Viver se houver valor a vida

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu
Não deixo a vida me levar

Não deixo a vida me levar
Quem leva a vida sou eu

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Esquecer...

Um dos mais recentes direitos em discussão é o de ser esquecido. Criminosos que cumpriram suas penas querem o direito de não serem julgados novas e novas vezes pela opinião pública, cada vez que o Google ou uma matéria jornalistica traz os seus nomes de volta à tona, relacionados a seus crimes já pagos segundo a lei dos homens. Assim também os envolvidos em escândalos politicos, sociais e até mesmo esportivos. Todos querem viver livres de serem lembrados como culpados. No entanto, vital, mesmo!, pra cada um de nós, culpados e inocentes, continua sendo lembrar de esquecer...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A grande beleza

Assisti, finalmente, ao elogiado filme italiano "A grande beleza", a que também elogio por seu olhar impiedoso, irônico e burlesco até de uma elite decadente - que, no fim das contas, é aplicável a todos nós -, fazendo pensar o que é realmente belo, ou digno de algum sentido, em nossa passagem pela vida e nas típicas relações com outras pessoas, sem ter a pretensão de dar respostas fáceis.

Como não sou crítico de cinema, deixo o link de uma crítica que me pareceu próxima do que senti ao ver o filme, a meu ver, altamente recomendável. Aproveitem!

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/12/1388082-critica-com-referencias-a-fellini-e-antonioni-a-grande-beleza-retrata-superficialidade.shtml

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Rei do Blues




Desconfio das pessoas que não gostam de música, que não apreciam ouvir música e não tem a música como uma companheira para as boas e más horas. Na verdade, sob efeito do meu senso crítico virginiano, chego quase a desprezar essas pessoas. Mas me explico! Vejo e sinto a música como a mais humana das coisas, aquilo que realmente nos diferencia e nos eleva a ponto de justificar sermos obra da criação de Deus - para uns - ou seres superiores aos demais animais - para outros. A única linguagem realmente universal, que é capaz de alegrar ou comover em qualquer idioma, ou mesmo sem o uso de palavras. Nada tem o poder de sensibilizar como a música, e se alguém não se sensibiliza com a música, nem com o amor conseguirá, pois não há amor onde não haja sensibilidade. Por isso, duvido um pouco da humanidade de quem seja indiferente à música. Se você se preocupou com isso, acalme-se!, nunca é tarde para se deixar conquistar pela música. Eu fui tocado por ela desde muito cedo, em minha casa, a partir dos discos do meu pai, seguindo-se dai em diante sucessivos deslumbramentos por novos artistas e estilos, num processo de (auto) conhecimento musical, porque todos respondemos diferentemente a esse estímulo sonoro. Quando conheci o Blues, fui atraído por esse gênero através da música de B.B. King, o maior bluesman vivo da minha época, que inspirou diversos outros grandes guitarristas com seu jeito emotivo de tocar sustentando o som das notas e tornando-as verdadeiros lamentos, típicos de um som com raízes nos cânticos tristes dos escravos negros nas plantações de algodão do Mississipi. Além de tocar, cantava de uma forma igualmente emotiva, mas exibindo sempre um sorriso na face, de evidente prazer pelo que estava fazendo. O Blues é, assim, uma forma ainda mais sensível de música, e que embora traduzido como tristeza, nem sempre é triste, mas direta, irresistível e incrivelmente simples. Só deixa a simplicidade de lado, quando tocado e cantado por alguém que o eleva ao estado de pura emoção, como o Rei e outros poucos conseguiram. Sempre me lembrarei daquele show do B.B. King em Porto Alegre (Gigantinho), lá em 1995, onde me senti conduzido por sua música a um estado de graça, em que por uma hora nada mais importava, somente vê-lo e ouvi-lo ali diante de nós. No dia de hoje, em que ele partiu, somente algum de seus melhores blues será capaz de expressar o quanto lamentamos a sua perda. Meu sincero e mais profundo agradecimento a sua música, senhor Rei do Blues. Descanse em paz...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O sal da terra




Assistimos nesta semana ao documentário "O sal da terra", sobre a vida e a obra do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que concorreu ao Oscar 2015. Sou particularmente fã dele, tanto pelo fotógrafo que é como também por seus projetos fotográficos, próximos do fotojornalismo mas com realce artístico e humanitário inconfundíveis em seu preto e branco característico. O filme trata rapidamente da vida pessoal de Salgado, de sua união com a mulher Lívia (sua grande parceira profissional), filhos - um deles co-diretor do documentário, ao lado do consagrado Win Wenders -, o exílio durante a ditadura, o encontro e a decisão pela fotografia, além do projeto de reflorestamento da fazenda de seu pai em Minas Gerais, onde nasceu o protagonista, hoje tornada uma reserva florestal de mata atlântica. No entanto, é mostrando a sequência de trabalhos realizados pelo fotógrafo, ao redor do mundo, que nos deparamos com uma grande panorâmica dos tempos em que vivemos, da realidade social por vezes bela, por outras aterrorizante. Passando pelos recônditos da América Latina, por tribos indígenas isoladas na floresta amazônica, até os movimentos migratórios causados por guerras sangrentas na África e na Ioguslávia, aos poços de petróleo em chamas no Kuwait, às duras imagens dos mortos pela fome na Etiópia, até o deslumbramento da natureza intacta, retratada em Gênesis - sua mais recente obra. Impossível não ficar impressionado com o desprendimento desse homem que passou grandes períodos longe de sua família para registrar em
fotos os locais mais inóspitos do planeta, muitas vezes convivendo com o perigo e o desconhecido,
em atitude de enorme consciência e respeito por seu trabalho, mas sobretudo pelo respeito a quem é fotografado e a sua identidade cultural; ou ao caráter revelador da imagem captada, seja como fato social, seja como denúncia da violência desse animal feroz chamado Homem, o sal da terra. O filme, por vezes bastante pesado, termina leve e com uma mensagem otimista, de que podemos nos reconciliar com a natureza e, quem sabe, com nós mesmos, e assim como aqueles que o aplaudiram ao final da sessão, eu também aplaudo o nosso querido conterrâneo Sebastião Salgado, por ele e por sua obra.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Feliz 2015!?

O blog retorna das férias e do carnaval para retomar suas atividades normais (?) em 2015. Mas, tenho que confessar, estou acompanhando o clima de pessimismo que assola o país desde o final do ano passado, quando o mais recente - e talvez o maior de todos - escândalo de corrupção, envolvendo a maior empresa brasileira, ou que o era, deixou a população abestalhada com sua dimensão, o governo sem saber o que fazer e a economia, que já vinha cambaleante, temendo os efeitos desta e de outras péssimas notícias que se somam diariamente: alta da inflação e do dólar, aumento das tarifas públicas e do combustível, atividade industrial caindo continuamente, desemprego crescente, enfim, a coisa tá braba. Nós, até faz pouco, éramos até invejados como a vedete dos investidores internacionais, o país emergente que decolava como a célebre capa da revista Economist, em que a estátua do Cristo Redentor levantava vôo feito um foguete. Agora, somos vistos com desconfiança pelo mundo, que já voltou os olhos a outros mercados preferenciais. Não alcançamos o objetivo do desenvolvimento, a que fomos levados a crer, embora, de forma muito cara e pouco sustentável, tenhamos conseguido reduzir um pouco da nossa desigualdade social. Viver num ambiente assim, de extremo pessimismo quanto ao futuro do país, acaba nos contagiando em relação às nossas escolhas pessoais e profissionais, até quanto a haver decidido viver num Brasil que, parece, nunca terá solução. E se essa solução passa por um povo receber a educação necessária para enfrentar e superar períodos difíceis, tanto pior, porque não vejo isso acontecendo, senão que apenas uma população interessada em consumir a qualquer custo, na esteira de pacotes assistenciais e nitidamente eleitoreiros, em meio a uma extrema pobreza cultural e à carência de valores necessários para uma nação se sustentar. É duro admitir, mas se pudesse voltar no tempo e recomeçar, considerando o que vejo hoje, provavelmente optaria por tentar a vida noutro país para gozar da segurança e estabilidade de um lugar realmente civilizado. No entanto, reconheço que o momento de pessimismo nos abate, mas tende a ser transitório, nos levando a um comportamento de readaptação e a novas formas de convivermos com a realidade brasileira que, convenhamos, nunca foi estável nem previsível. Desculpe, então, meus amigos, se só escrevi mais do mesmo desses dias. E só para deixar claro, sou um otimista...Feliz 2015!