domingo, 8 de setembro de 2013

O sexo nos dias de hoje

O nosso querido festival de música Moenda da Canção, que se realiza há 27 agostos em Santo Antônio da Patrulha, encerrou a edição deste ano com o show "Sexo e Rock'n Roll", do tremendão Erasmo Carlos. Ele que é um dos maiores compositores da música brasileira, sobretudo pelas canções compostas em parceria com Roberto Carlos, segue na estrada mostrando seu trabalho e mantendo a pegada roqueira, mesmo com seus 70 bem vividos anos. Logo no início do espetáculo, o cara deixa claro que o show é uma homenagem ao sexo e às mulheres, que lhe permitiram desfrutar tantos e lindos momentos ao longo de sua vida, além de família e filhos. Mas a visão do sexo para um septuagenário famoso, que por certo desfrutou muito da aura sedutora dos ídolos, parece ser diferente da de um adolescente ou jovem dos dias de hoje, quando se constata uma certa banalização do relacionamento sexual. Nem falo da questão dos padrões atuais, em que parece cada vez menos importar o padrão dominante, se hetero, homo, bi ou pansexual, e mais a livre opção individual sobre antigos tabus que vão desmoronando a cada novela da Globo. O ponto em que me detenho é sobre a mística, o glamour, o ideal de desejo maior que o sexo perdeu para essas gerações de garotos e garotas que nele se iniciam. Para mim e os da minha geração - como constato, não suponho -, o sexo foi e segue sendo algo de grande importância em nossas vidas, para o que sempre estivemos alertas, imaginamos, fantasiamos, quisemos e, sobretudo, respeitamos! Porque quando éramos nós os adolescentes, tudo o que podíamos fazer - além do que, de fato, nos restava fazer, solitariamente... - era sonhar com o dia em que teríamos acesso ao mundo dos homens que tinham sexo com mulheres (de verdade!). As barreiras eram muitas e a distância parecia invencível para alcançar esse dia. Mesmo que se soubesse quem eram as "gurias que davam", havia um temor sobre o que aconteceria se elas dissessem o sim, tamanho o fascínio que a primeira vez representava para qualquer guri daqueles anos 80. O resultado de tanta expectativa, desejo e espera foi que idealizamos o sexo e o supervalorizamos. Daí o respeito por tudo o que representou no descobrimento da nossa condição masculina, e segue representando, pois, realmente, como eu vim a constatar, é difícil supor melhor
sensação para um ser humano. Hoje em dia, no entanto, o sexo parece ter se tornado, para uns, somente um passatempo desfrutável até entre amigos entediados, ou, para outros, só algo que os casais também fazem, assim como ir ao cinema, comer pizza e ver TV. Nas palavras de prestígio de Vargas Llosa, em seu excepcional "A civilização do espetáculo", o grande escritor e crítico dos tempos atuais fala da perda do Erotismo, entendido como o ritual da sedução, o mens in scene, a ansiosa tensão que visa ao momento da conquista e entrega, possuindo um valor tanto ou mais prazeroso que a prática em si. Segundo ele, o ato por si só, sem a transcendência dada pelo Erotismo, o rebaixa a mero exercício físico, dando margem à vulgaridade e à pornografia, que distorcem o que o sexo teria de sagrado (sem conotação religiosa) para a humanidade. Vale reproduzir - sem trocadilhos! - as palavras de saborosa advertência do Nobel peruano: "separado das demais atividades e funções que constituem a existência, o sexo é extremamente monótono, de um horizonte tão limitado que no final acaba sendo desumanizador. Uma vida imantada pelo sexo, e só por ele, rebaixa essa função a uma atividade orgânica primária, que não é mais nobre nem prazenteira que comer por comer, ou defecar. Só quando a cultura o civiliza e o carrega de emoção e paixão, quando o reveste de cerimônias e rituais, o sexo enriquece extraordinariamente a vida humana, e seus efeitos benéficos se projetam por todas as brenhas da existência. Para que essa sublimação ocorra é imprescindível, como explicou Georges Bataille, que se preservem certos tabus e regras que canalizem e freiem o sexo, de modo que o amor físico possa ser vivido - gozado - como uma transgressão. A liberdade irrestrita e a renúncia à teatralidade e ao formalismo em seu exercício não contribuíram para enriquecer o prazer e a felicidade dos seres humanos graças ao sexo, mas, ao contrario, para banalizá-lo, convertendo em mero passatempo o amor físico, uma das fontes mais férteis e enigmáticas do fenômeno humano". Nada mais.