segunda-feira, 8 de julho de 2013

#CASO 4: A Srta. Promotora

Eram 9 horas da manhã de uma Terça-feira e eu aguardava a audiência, junto com meu cliente, no corredor do foro central. Seria uma audiência de conciliação num divorcio litigioso. Guarda de filhos, partilha de bens, pensões e rancores envolvidos. Esses momentos que põem as partes em contato para tratar do problema que eles mesmos criaram e que agora desejam ver resolvido pelos advogados, juiz, promotor, toda a maquina judiciária e a própria justiça divina, se Deus quiser...O ofício de advogar nos leva a desenvolver certas habilidades, em especial o exercício do distanciamento. A gente vai aprendendo a se distanciar do fato que é a nossa causa de agir e a causa da aflição do cliente. Separamos a avaliação emocional que nos é dada por sua categorização legal, para daí traçarmos a estratégia jurídica que alcance o resultado esperado, ou o melhor que for possível. Mas o distanciamento exige muita disciplina, e por vezes também somos abatidos pela situação humana com que lidamos, pois não é raro encontrarmos em um caso a sinalização do erro, do engano, da falência da própria condição humana. O amor, que inspira tantos casais, não conta absolutamente nada em uma audiência dessas. Ele é simplesmente ignorado ou, no máximo, utilizado como retórica para quem busca a vantagem de obter a compaixão do juiz e melhorar sua posição contra o desamado oponente. E assim estava eu devaneando já com o cóccix sensível à dureza do banco de espera - que deve ser assim, muito provavelmente, para dissuadir as pessoas a voltarem a buscar a justiça dos homens e resolverem seus problemas como gente civilizada -, quando a audiência foi apregoada. Entramos, nos colocamos frente à frente, advogados e partes, juiz ao meio. No instante em que estranhei a ausência do representante do Ministério Publico, ela entrou. Uma jovem, 30 anos ou quase, magra, cabelo negro na altura dos ombros, olhos igualmente negros que varreram a sala com um breve bom dia, e a altivez marcante de um passo firme e de uma postura ereta incomum para mulheres daquela idade. Parecia muito certa do que fazia, ou viria a fazer. Sem falar mais nada, sentou-se ao lado do juiz e passou a ler suas anotações sobre o caso. Então, antes mesmo do juiz pigarrear, a Promotora dirigiu-se a meu cliente, sem cerimônias: "Então, sr. Cássio, vamos resolver isso hoje?" Respondi de imediato, para fazer notar minha presença e evitar que meu cliente se sentisse acuado: "Sra. Promotora, isso a que Vossa Excelência se refere também é do interesse do meu cliente, mas não depende só dele." Dito isso, ela me fitou no curso de uma pausa e disse com um humor sutil, sustentando o olhar no meu: "Tudo bem, doutor, mas é senhorita, ok?" , e sorriu. Na verdade, sorrimos todos, o gelo foi quebrado e a audiência seguiu sem maiores tensões, resolvendo-se ali o litígio que, acredito, já havia exaurido as forças das partes, facilitando o terreno para mútuas concessões. Ao sair da sala, aguardei a oportunidade e alcancei-a no corredor, pedindo-lhe desculpa e dizendo que só a chamara de senhora por respeito. Ela riu novamente, disse que entendia e que não me preocupasse, arrematando: "Agora você já sabe que sou solteira e sabe também meu nome, prazer Clarissa! Não vai esquecer, dr. José Carlos...a gente se vê por aí, tchau!" E me deixou para trás, assimilando aquelas palavras e tentando censurar o meu ímpeto em acreditar que ela dissera mais do que falara. Voltei dali pro escritório pensando, apenas, por que não?