domingo, 19 de maio de 2013

#CASO 3: O filho inconformado


A coisas estão calmas nesta Terça-feira. Valeska retornou a seu birô depois de conversarmos amenidades e dela me revelar, para minha surpresa, que já foi casada, mas que abdicou do casamento quando percebeu que era mais feliz consigo mesma do que com o homem que a ignorava em casa. "Justo", pensei. Não eram os meus melhores dias. Virgínia casara no final de semana anterior, o que me fez retornar algumas casas no meu propósito de voltar a me relacionar com o sexo oposto. Mas, no fundo, fiquei feliz por ela ter encontrado alguém com quem valha se propor a uma vida a dois, nesses tempos tão complicados...por isso fui sincero ao lhes desejar felicidades no cartão. Além disso, não me sinto bem com a situação de complicar a vida dela, colocando meu desejo à frente de sua felicidade. Então, vou levantar as velas e deixar que o vento me leve em direção a outros portos. Soa o telefone, e Valeska me pergunta se pode passar um cliente novo chamado Fábio. Respondo que sim, a porta se abre, o sujeito entra, gesticula uma saudação e senta-se na cadeira à minha frente. Impossível não notar a perfeita simetria no sujeito. Roupas, sapatos, postura, enfim, tudo parecia incrivelmente asseado e no seu lugar, exceto - logo percebi - por uns tiques, como levantar e baixar lenta e ininterruptamente a perna direita e passar a ponta dos dedos pelo lado interno da orelha esquerda. Agora, o cabelo era de tal modo dividido e penteado que só poderia sê-lo com a ajuda de outra pessoa. "Gostou do cabelo?", perguntou irônico. Fiquei sem jeito pela minha indiscrição em reparar nele, mas não perdi a naturalidade. "Desculpa, é que fiquei pensando em como deve ser difícil ter um penteado assim tão bem...alinhado", respondi. "Pois é, doutor, eu não conseguiria sozinho. Na verdade, muitas coisas eu não consigo fazer sozinho, quero dizer, sem a ajuda da minha mãe. E esse é o problema...". Curioso, pedi que falasse. "Então, doutor, tenho 50 anos, sou filho único e ainda moro com minha mãe. Isso não seria um problema, se não fosse o fato de que hoje eu vejo como eu me deixei manipular por ela durante toda a minha vida. Em resumo, doutor, hoje eu sou um bundão por causa da minha mãe". O insólito da situação me fez custar a dizer algo. Entre surpreso e incrédulo, disse que não era nenhum Freud e que esses problemas entre mães e filhos eram coisa pra psicólogo. "Doutor, não sou burro, eu quero é processar minha mãe!". "Processar por que, Fábio?", perguntei com sincera curiosidade. Após um longo suspiro, ele começou a falar pausadamente, com uma nota de resignação. "Olha, doutor, minha mãe sempre me manteve embaixo da sua asa, desde que eu era criança e ela já era viúva. Comprava minhas roupas, me vestia e tomava o tempo que eu deveria passar com meus amigos que, na verdade, eu nunca consegui ter. Isso tudo até pouco tempo, doutor! Mulher, então, nem pensar! Sempre que eu falava de alguma menina, ela reagia com desdém e menosprezo, dizendo que ninguém cuidaria de mim como ela. E assim o tempo foi passando, doutor, e hoje eu tenho 30 anos e sou esse bundão que o senhor está vendo". Percebendo a angústia no cliente, procurei amenizar a situação. "Desculpe, Fábio, mas me parece que sua mãe não é muito diferente de todas as outras, e acho que no fundo o que ela só queria o melhor pra você. E, bom, agora que você já é um homem adulto, nada mais o impede de ir fazer sua vida, não é mesmo?". Ele riu. "Aí que está, doutor, o problema é que eu não consigo mais me separar da minha mãe. Por isso eu quero processá-lá, pra que a Justiça me ajude nisso. Ao mesmo tempo que eu quero deixar de viver com minha mãe, não consigo fazer isso sozinho. O senhor aceita meu caso?" É claro que eu não aceitei. Embora ele tivesse mesmo um problema, aquilo não era um caso. Era só mais uma história de um drama individual, de tantos que eu já ouvira e que já não tinham mais graça pra mim, nem viravam piada em rodas de advogados. Ali da minha sala, olhando as janelas de tantos prédios de apartamentos, fiquei pensando que em cada uma delas haveria alguém convivendo com o seu próprio drama. Solitários esperançosos por encontrar alguém de quem gostar. Casais que deixaram de se gostar. Sonhadores, derrotados, lutadores, aventureiros, enfim, pessoas atrás de sentido, paz ou amor. No mesmo vidro da janela que dava para a rua, reparei no meu próprio reflexo e pensei que, mesmo tendo vivido meus próprios traumas, eu seguia ali, acreditando no que eu fazia e na vida que eu levava. Eu não havia perdido para minhas perdas, nem pra solidão que me acompanhava há algum tempo. Então me senti bem, vivo e capaz de seguir adiante. Levantei e segui até o bar da esquina encontrar algum amigo pra tomar um chop e rir de qualquer coisa, como as pessoas fazem quando querem simplesmente não se preocupar com mais nada.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Vitória e reflexões


Retomo o blog após uma pequena ausência. O porquê da ausência não foi dengue, esquecimento ou pane no computador. Foi a mais completa falta de tempo mesmo, devido às coisas do trabalho, sobretudo. E retorno, agora, após uns dias de férias em Vitoria-ES, pra onde fomos por uma certa curiosidade e também por não conseguirmos hotel no Rio de Janeiro. Foram poucos mas proveitosos dias, com sol, praias, bares, boa comida, um bom livro* e, é claro, a minha ótima companhia de sempre... Ao contrario do Rio, Vitoria não é uma cidade que prioriza o turismo, embora tenha excelentes lugares para mostrar e desfrutar. Gostei do jeito da cidade, moderna e ao mesmo tempo simples, com seu povo hospitaleiro e mais mineiro que carioca. Cidade pujante, onde a riqueza circula a partir de seus portos, mas sem espalhafato. Enfim, um novo bom lugar que valeu conhecer. Nesses dias, saído da rotina intensa de tarefas e compromissos, a gente olha a vida em retrospecto, distanciado da visão imediata da agenda diária para ampliar o alcance da reflexão aos anos que se foram e às escolhas feitas, projetando o que ainda dá pra projetar de um futuro que já não é mais o mesmo que eu via quando tinha meus 20 anos. Lá, na beira da praia, voltei a pensar em como sempre quis morar em frente, ou próximo, ao mar. Só que, agora, as chances para isso acontecer diminuem exponencialmente porque fiz minha vida, até aqui, longe dele. Isso serve como exemplo das coisas que, a partir de um certo ponto da vida, simplesmente passamos da hora de realizar ou conquistar. Sei que não faltará quem diga que sempre é tempo para o que quer que seja, no que eu concordo em parte. Sempre será tempo para amar, trabalhar, escrever um livro ou um poema, aprender a tocar um instrumento ou falar outro idioma, e por aí vai... Mas há desafios maiores que, assim como a juventude dura certo tempo, também exigem de quem busca conquistá-los o esforço de grande parte de uma vida, e esse tempo não se tem por toda a vida. Parafraseando Quintana, antes todos os caminhos vão, depois todos os caminhos vêm. Isso, claro, não nos impede de tomarmos, sempre e para sempre, as decisões que farão melhor às nossas vidas, além de abdicar daquilo que nos chateia e que, por vezes, inevitavelmente temos que conviver. Só que a urgência da vida está em que não temos todo o tempo o tempo todo. O tempo, meus amigos, não é o mesmo sempre.

*o livro lido nesses dias entre a areia da praia e a espera dos vôos, e que eu recomendo, foi o "História de canções - Tom Jobim", de Wagner Homem & Luiz Roberto Oliveira