terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Homenagem ao Padre Ermelindo

Eu fui escoteiro. Na verdade, um dos lemas do Escotismo é "uma vez escoteiro, sempre escoteiro". Então, sou escoteiro! E assim me sinto até hoje mesmo, pois devo a isso o gosto pela aventura, pela natureza e liberdade. Foi um grande impacto sentir-se livre com 11, 12 anos de idade. Não por uma possível sensação de que pudesse fazer o que quisesse, mas por se ver responsável pela própria segurança e bem estar. Era assim que nos sentíamos, como meninos que dependiam de si mesmos, acampados em algum lugar remoto, cercado por natureza e distante do conforto cotidiano, tendo que montar nosso próprio acampamento, fazer nossa própria comida, matar cobras, colaborar uns com os outros e dormir em barracas, longe dos nossos pais e sob a supervisão de alguns poucos adultos, nossos chefes escoteiros. Além disso, também fui chefe de patrulha, "comandando" outros escoteiros e buscando vencer os jogos e competições com as demais patrulhas. Mesmo nunca tendo sido competitivo, creio que aprendi algo sobre liderança, sobre a importância de conciliar e envolver as pessoas nas decisões que afetam o grupo. Graças ao Escotismo, tenho certeza, amadureci mais seguro e saudável. Me tornei uma pessoa melhor. Há poucos dias, recebi a noticia do falecimento do meu chefe, amigo e uma das pessoas mais bondosas que conheci. O “Padre Ermelindo”, como era conhecido por todos, a meu ver foi mais que um religioso, era um missionário que não media seu sacerdócio pela mais absoluta obediência às regras da Igreja, mas pelo bem que fazia aos outros através de ações inclusivas, movimentos comunitários e obras sociais. Ele, um padre, fundou o movimento escoteiro na minha cidade - e que acabou logo após sua saída. Criou movimentos religiosos de jovens e de casais por onde passou. Construiu um complexo cultural em Cachoeirinha, para desviar jovens carentes do sedutor caminho das drogas, e foi reconhecido por isso a ponto de se tornar secretario municipal de ação social daquela cidade, que hoje, suponho, lamenta muito sua ausência. A ultima vez que o vi e estive com ele, fui lá convidá-lo para abençoar meu casamento, ao que ele agradeceu mas declinou porque teria compromissos de secretario para cumprir no dia da cerimonia. Não me deixou ir embora sem antes mostrar-me, orgulhoso, a imponente obra do centro cultural que idealizou e fez acontecer. Algo que parecia grande demais pra vir daquele homem franzino e de fala mansa. Em tempos extremamentes individualistas como os de hoje, é difícil imaginar alguém que se doe tanto a sua própria comunidade. Talvez porque não vemos o óbvio que ele provavelmente visse: o quanto mais fizermos para melhorar o que está a nossa volta, melhor viveremos, e vice-versa, porque a rua está na porta de todos nós e essa porta é frágil...




Minha singela e sincera homenagem a esse grande homem que conheci e meu querido amigo, pelo que fez por mim e por tantos outros escoteiros, ou carentes, ou necessitados de sua palavra ou dedicação. Muito obrigado, Chefe Ermelindo Lottermann.



Todos nós somos decisivos para o bem ou para o mal do mundo, através da nossa ação ou omissão.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

#CASO 2: A NOIVA (parte final...ou não)


Já havia se passado em torno de um mês quando minha secretária Valeska me passou o recado: Virgínia ligara e viria ao escritório no final daquela tarde. Não foi difícil lembrar quem era Virgínia, ao contrario, percebi nesse instante o quanto eu havia pensado nela após aquele primeiro atendimento a sua inusitada consulta sobre "separação pré-casamento". Lembrei dos seus olhos azuis, impossíveis de esquecer, e do quanto eu andava por aí assobiando a melodia do Tom...esse seu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas, que eu nem posso acreditar... É, talvez fosse melhor evitar manter o meu olhar no dela enquanto eu estiver sob o efeito dessa, dessa, sei lá o que é isso, se uma atração, comoção ou a mais pura falta de mulher mesmo. Vai saber?! Enfim, sentimentalismos à parte, preparei o espírito para recebê-la, caprichando no ceticismo quanto a qualquer possível affair, por se tratar ela da noiva decidida de um cara com "boa situação financeira" - como ela mesma o definiu e como eu não me defino. A tarde passou rápido entre tantas pequenas tarefas, e até me surpreendi quando Waleska anunciou que Virgínia já se encontrava a minha espera. Disse que entrasse e me levantei para recebê-la, quando ela atravessou pela porta com passos firmes de quem sabia o que vinha fazer ali, estendendo a mão ainda longe de mim, como se, por cautela, quisesse evitar um cumprimento mais próximo. Mas o sorriso veio junto e, claro, aqueles olhos... Deve ter percebido minha cara de besta, mas sentou-se antes mesmo que eu falasse. Então me disse, parecendo aliviada: "Tudo resolvido, doutor!". Respondi: "Como assim? Ah, e sem o doutor, pode me chamar de Zé Carlos". "É que eu saí do seu escritório aquele dia e fui almoçar com meu noivo. Disse a ele que havia falado com um advogado e que estava convicta de que o melhor seria casarmos com separação de bens, pra não misturarmos nossos bens pessoais à nossa relação. Ele disse que faria como eu quisesse, então marcamos o cartório pra assinarmos o documento na mesma semana do casamento. Pronto!" Ela logo percebeu minha cara de dúvida e, num tom mais informal, passou a explicar por que voltara ao escritório para me falar isso. "Vim aqui porque tinha que lhe agradecer. Você foi muito atencioso comigo, explicando cada coisa e suas consequências. E...também pra dizer que gostaria de continuar falando com você, não como cliente mas como amiga. Não me interprete mal, é que você demonstrou se preocupar comigo e eu me senti bem com isso, e com a nossa conversa e seu jeito de falar...bom, é isso!". Mesmo surpreso, tratei de livrá-la de seu constrangimento e disse num sorriso que seria um prazer voltar a vê-la e tê-la como amiga. "Só não sei se o seu noivo vai gostar de saber disso...ele pode achar estranho". Ela me olhou fixamente e falou com um sorriso contido nos lábios: "ele não precisa saber de tudo o que eu faço". Após uma pausa, concluiu: "e não vejo nada demais nisso, não é mesmo? Eu não tenho família aqui, e só uns poucos amigos...acho natural preservar minhas amizades...mesmo as novas (risos curtos)". Aproveitei a deixa e me joguei num daqueles momentos em que você não sabe bem porque disse tal coisa, mas que se torna impossível de recuar. "Não sei, e se surgir alguma coisa entre nós?". Mesmo evidente a ironia na minha voz, deixei transparecer uma certa verdade já em curso no que eu disse. Sorrindo, Virgínia não mostrou qualquer surpresa ou estranheza no meu comentário, como se já esperasse um sinal da minha parte. "Se isso acontecer, a gente vai saber resolver", disse evasiva. A ambigüidade daquela resposta, junto aos olhares que não conseguiam se desviar, trouxe um súbito silêncio à sala, como se o barulho exterior dos carros estivesse suspenso à espera do desfecho daquele momento. "Eu não sei bem sobre o que a gente tá falando aqui, Virgínia, mas eu sou um cara livre e, bom, mesmo que não fosse, você é uma jovem comprometida e...se me permite dizer, atraente...pode criar problemas pra você uma amizade assim com um homem deslocado das relações de vocês...". Na verdade, quis adverti-la de que eu a via como uma mulher desejável e que manter contato comigo seria assumir o risco de eu vir a cortejá-la. "Eu não serei seu amigo gay", pensei com todo meu machismo suburbano. Ela seguiu inabalável. "Eu sei bem das coisas que podem acontecer entre um homem e uma mulher, Zé Carlos. Mas eu tô falando em ser tua amiga, porque achei você uma pessoa interessante e confiável, o que tá cada vez mais raro hoje em dia...então não se preocupe, você não me trará problema algum. Antes de tudo, eu tenho minha própria vida, não dependo de ninguém e não vejo porque você iria atrapalhar meu casamento. Então, a menos que você não queira, gostaria de podermos conversar de vez em quando...como amigos! E, bem, se acontecer alguma coisa é porque era pra ser. Você não acha?". Concordei com ela, conversamos mais um pouco, rimos e ela se foi. Disse que ligaria na próxima semana para combinarmos um café. Girei minha poltrona para a janela às minhas costas e fiquei contemplando o vermelhidão do entardecer refletindo nas vidraças do prédio no outro lado da rua. Parece que Virgínia entrara mesmo em minha vida. Fosse como amiga ou não, certo ou errado, só o que eu sabia é que estava contente com isso, como se antevisse nela alguém que gostarei de ter por perto. Engraçado como o destino, o acaso ou alguma ordem secreta das coisas, nos aproxima de pessoas que acabam, muitas vezes, tomando um espaço importante em nossas vidas. Onde não havia nada, de repente surge alguém que passa a ser muito, ou tudo. Onde havia tudo, alguém sai e deixa o nada. É como diz a música do Gil, tocando ao fundo, tudo agora mesmo pode estar por um segundo...