quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Adeus ano velho...

E o ano vai chegando ao fim, de novo.

2012 foi um ano de muitas comemorações e coisas boas pra mim.

Comemorei - sim, acredite, comemorei! - meus 40 anos de vida, pra celebrar o que rolou até aqui.

Não que eu tenha conseguido grandes feitos, fama ou fortuna, mas olho pra trás e vejo que fiz a maior parte das coisas que quis fazer e que estive próximo das pessoas com quem queria estar, o que basta pra dizer que, a meu juízo, o balanço é positivo.

Comemorei, junto com a Cacá, os nossos 20 anos juntos! Não que eu curta ficar somando os anos da relação, até porque pode parecer que ela - a relação! - esteja envelhecendo ou decaindo pelo peso desse tempo todo (o que não é o caso), mas o número impressiona sim.

Na verdade, o que mais impressiona é o quão leve e saboroso continua sendo o nosso cotidiano apesar, ou por causa, de tanto tempo.

Enfim, um tempo esse mais que suficiente pra comprovar o acerto de nossas escolhas e a força do amor que a gente construiu sobre esse terreno movediço dos sentimentos. Te amo Cá!

Ainda nas comemorações, foi inesperado e imensamente prazeroso reencontrar os meus amigos da  Anjos Rebeldes para fazer um show pelos 25 anos da banda, que criamos ainda moleques e para a qual voltamos depois de tantos anos distantes um do outro. Uma noite inesquecível, no bar Meia-Meia II, em meio a tantos amigos e ao som do melhor rock gaúcho daqueles idos anos 80.

A conclusão das aulas do Mestrado foi uma conquista, porque significou um desafio estudar no exterior, em outro idioma e com tantas incertezas sobre o curso. Mas recebi muito mais do que esperava. Além do conhecimento e de reencontrar o gosto pelo estudo do Direito, fiz bons amigos de toda a Latinoamerica e  desfrutei da bela cidade de Rosário.

Profissionalmente, novas parcerias surgiram, o relacionamento com os clientes se fortaleceu e, ainda, comecei a organizar minha atuação com o escritório da família, junto a meu pai e irmãos, para onde retorno agora, mesmo que em tempo parcial, para colaborar com a equipe.

Enfim, um bom ano, que deixará boas lembranças e que, espero, inspire um 2013 ainda melhor. Até porque confio que o melhor sempre estará por vir, assim como diz o Fito Paez...

Y si algo aprendimos en el mundo
Es que el mejor momento aún no vino,
Está por llegar, confiá.
Confiá, confiá
Confiá, confiá
Confiá, confiá.


Àqueles que, de alguma forma, colaboraram ou estiveram comigo este ano, meu muito obrigado e que sigamos juntos ano que vem, com saúde, alegrias e realizações.

Feliz Natal e Ano Novo!


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

#Caso 2 - A noiva

Segunda-feira, contas pra pagar, prazos pra terminar, telefonemas pra retornar, enfim, típica segunda-feira. Chego no escritório, pela manhã, já me preparando para iniciar as tarefas do dia. Waleska, a secretária, só chegará à tarde, como sempre. Nem havia alcançado minha mesa, bateram à porta. Abri e me deparei com Virgínia, como depois vim a saber. Perguntou se eu já estava atendendo porque queria uma consulta. Era jovem, creio que uns 25 anos, loira, olhos azuis e elegante - sim, uma mulher muito atraente. De imediato fiquei curioso sobre o que a teria trazido no meu modesto escritório, numa manhã de segunda, como se estivesse ansiosa para resolver algo. Pedi que sentasse na poltrona em frente à mesa de trabalho e de imediato dei uma rápida olhada na ordem geral da sala, torcendo para que a faxina da sexta-feira anterior ainda fosse perceptível. Sentados, perguntei no que eu poderia ajudar-lhe.


- Bom, doutor...vim fazer uma consulta, sobre casamento, pode ser?

- Sim, farei o possível pra ajudar a esclarecer suas dúvidas - respondi ainda impactado por aqueles olhos azuis.

Apresentou-se e, após eu perguntar se alguém me havia indicado, disse com graça que decidiu falar comigo porque meu nome no letreiro do saguão lhe pareceu confiável - e de pronto gostei de seu sutil senso de humor.

- É que, bem, não sei se você vai me entender - seu constrangimento era visível -, mas eu queria saber o que aconteceria comigo se eu me separasse...assim, o lado financeiro.

- Então você é casada e quer saber como ficaria numa eventual separação. É isso?

- Na verdade, eu não sou casada...ainda. Mas eu explico. É que estou noiva, vou me casar, com um engenheiro, uma pessoa que gosta de mim, tem uma boa situação financeira, a gente se dá bem e tal, então eu acho que é o melhor a fazer. Só que, se não der certo, eu queria saber como eu vou ficar, né? Não me leve a mal, eu tenho um bom trabalho, não dependo dele, mas não quero me prejudicar se o casamento acabar, entende?

Era evidente que sua decisão de casar-se era muito mais racional do que sentimental. Entretanto, não me parecia que ela estivesse interessada apenas na boa situação financeira do noivo. Assim, me arrisquei a perguntar:

- Não me leve a mal, mas você não parece estar muito empolgada com esse casamento. Você pensou bem se seria, de fato, a melhor coisa pra você, ou se o momento seria mesmo esse? Só pergunto isso porque tenho que advertir-la que toda a separação é algo difícil de lidar e emocionalmente desgastante.

Ela me fitou com uma expressão que não foi de repulsa pela pergunta tão pessoal que fiz. Seu olhar era de resignação, de quem já havia se enfrentado com essa questão por muitas vezes e havia tomado uma decisão sobre a qual nao queria voltar a pensar.

- Doutor, eu sei que é o melhor pra mim. Quero alguém pra dividir minha vida. Pode não ser a pessoa com quem sonhei, mas é a melhor que pude encontrar até aqui e...

- Mas você ainda é muito jovem - disse, interrompendo-a.

- Eu sei, mas isso parece que só piora as coisas. Tenho a impressão de que os homens só se aproximam de mim por me acharem bonita, por me desejarem, sem se importarem com quem eu sou e o que quero pra mim.

Velho dilema de mulher bonita, pensei.

- Bom, se você está decidida, quem sou eu pra questionar... - falei isso olhando pra aquela mulher linda, jovem e atraente, imaginando que talvez eu a pudesse fazer feliz e ser feliz com ela, se a vida tivesse nos dado uma oportunidade. Ao invés disso, perdi a pessoa que amava e agora vejo diante de mim alguém que abre mão de procurar viver um amor pra se entregar a uma conveniência. Quase uma ironia...

Quando retornei do meu transe momentâneo, percebi a curiosidade do seu olhar, como se ela tivesse deduzido os meus pensamentos, e nesse instante creio ter havido um lapso de extrema intimidade entre nós, que permaneceu velado naquele encontro de olhares, porque logo tratei de me corrigir e retomei os deveres do ofício, explicando-lhe o que dizia a lei sobre os regimes matrimoniais de bens e as consequências de cada um numa eventual separação.

- Espero que eu tenha esclarecido suas dúvidas.

- Esclareceu sim. Foi muito bom ter vindo aqui - dizendo isso com uma certa ambigüidade de sentido, como se o encontro tivesse sido mais interessante do que a consulta em si. Ou eu quis entender assim. Vai saber...

- Fico a sua disposição, quando necessitares - o que me esforcei para dizer da maneira mais séria e profissional que pude.

Ela deixou o cheque dos honorários sobre a mesa, levantou-se e abriu um lindo sorriso, que quase me impediu de levantar da cadeira para despedir-me dela, num aperto de mãos quentes.

- Muito obrigada pela orientação, me ajudou muito. Vou pensar a respeito e falar com, você sabe, com ele. Talvez eu, a gente volte a lhe procurar sim. Tchau!

Acompanhei-a até a porta e voltei para minha mesa. Sentado, ainda sentindo o seu perfume na sala, pensei no que poderia significar a comunicação sensorial que tivemos naquele rápido instante. Desejo? Interesse? Curiosidade? Mas, mesmo que significasse algo, do que adiantaria se ela estava para se casar, fosse lá o motivo que fosse, e eu não estava disposto a relações complicadas, sobretudo envolvendo terceiros. Ou, pelo menos, achava que não...


(continua)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mestrado UNR Rosário


Concluídas as aulas do Mestrado em Direito Privado na Universidade Nacional de Rosario, Argentina, que iniciei em abril de 2011, paro pra refletir como foi desafiador o que me propus a fazer. Encarar um mestrado num outro país, com um domínio relativo da língua e sendo o único brasileiro, sem muitas informações sobre o curso, a própria faculdade e a cidade de Rosario, pode ser visto como algo intempestivo mesmo, meio se jogar pra ver. Tanto é assim que no primeiro módulo de aulas minha idéia foi ir, conhecer e, se fosse o caso, não voltar mais. Mas, já nas primeiras aulas, deu pra perceber a seriedade do curso e a excelente qualidade dos professores, além da imediata identificação com nossas universidades públicas - no caso a UFRGS, única que conheço -, tanto pelo maior prestígio quanto pelo descaso com a estrutura física do campus. O desafio do idioma, por sua vez, foi amenizado pela compreensão e simpatia dos colegas e professores, em especial pela diretora do curso e notável Dra. Noemi Nicolau. A turma foi algo à parte, que me fez repensar minhas amizades e o cultivo delas. Rapidamente fiz bons amigos, daqueles que se faz questão de manter contato mesmo fora das semanas de aula, desde minha casa a países distantes como Paraguay e Colômbia. Talvez o fato de virmos todos de fora de Rosario e termos que nos virar aí com as coisas do curso e do dia a dia, nos fez muito mais receptivos e solidários uns com os outros, o que em meio a tanta gente boa facilitou que nos fizéssemos colegas de aulas, almoços, jantares e, claro, de muitas "cervezas". Tenho certeza de ter feito aí amigos pra vida toda, que quero ir visitar e recebe-los em minha casa. Me livrei dos preconceitos inevitáveis, para um brasileiro pouco conhecedor da Latinoamerica, sobre como são e como vivem meus colegas advogados desses países, inclusive os argentinos, que confirmaram minha impressão tão positiva sobre eles - ok, não estou falando dos portenhos -, pelos amigos que já tinha no país. Agora tenho uma idéia muito melhor de como se vive em Asunción, Medellin, Montevideo, Salta, Ciudad de Mexico etc., e grande vontade de conhecer esses lugares. Sobre o curso em si, tive aulas excelentes, recebi muita orientação sobre como enfrentar a dificil tarefa de concluir uma tese, conheci a Teoria Trialista do Direito que se desenvolveu na Argentina, graças à vinda de Goldschmidt para esse país e, depois, com seu maior discípulo Dr. Ciuro Caldani, fundador da carreira de mestrado na UNR, a quem tive o privilégio de assistir a uma conferencia e de cumprimentá-lo pela admiração que me causou. Ainda tive a sorte de eleger um orientador que, além de professor e grande conhecedor de direito societário, me revelou ser um amante da música brasileira de Vinicius, Jobim e outros de nossos melhores representantes. Com isso, obviamente, a identificação foi imediata e também aí surgiu uma boa amizade. ¡Gracias Dr. Juan Pablo Orquera! Sobre a cidade de Rosario, bem, só posso dizer que eu moraria aqui para seguir aproveitando suas ruas, prédios, cafés e restaurantes, os bares, a gente agradável e, sobretudo, sua costaneira junto ao Rio Paraná, lugar ideal pra caminhar e curtir o final de tarde. Recomendo conhecer! Bueno, estou certo de que voltarei outras vezes a esta cidade e, se Deus quiser (e eu conseguir), à UNR para defender minha tese e me tornar um magister por essa importante Faculdade de Direito. Hasta luego Rosario...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rio




Rio de Janeiro Cacá novembro Salgado Filho Santos Dumont Azul nublado taxista típico carioca Copacabana Sá Ferreira Hotel Ducasse praia de Ipanema Fasano Lady Gaga Arpoador Boteco Belmonte escondidinho carne seca Bar do Adão Marcelo e Juliana chopes risadas café da manhã calor praia morro Dois Irmãos Restaurante Nomangue metrô centro Candelária Centro Cultural Banco do Brasil Exposição Impressionistas Museu D'Orsay fila Cezanne Monet Gaughin Renoir Van Gogh Confeitaria Colombo café pastel de belem Teatro Municipal ingressos artistas de rua Lapa Antonio's chopes taxi Mercadinho Marcelo Juliana ogros Ogrostronomia cervejas sandubas madrugada manhã de chuva caminhada Av. Atlântica Loja Bossa Nova cd Jobim Vinicius Miucha & Toquinho Ao Vivo no Canecão almoço restaurante Zingara Belfort Roxo metrô hotel quarto ... nascimento Arthur fotos facebook metrô Centro Cultural Correios teatro "A ultima sessão de terapia" taxi Theatro Municipal concerto Quinteto Villa Lobos & Edu Lobo e Trio taxi Ipanema Devassa petisco Piu-Piu cerveja ruiva loira sarará caminhando a noite por Ipanema hotel café da manhã dia de sol praia posto 8 banho de mar gelado vendedores turistas personagens visual Arpoador futebol na tv do quiosque Flu campeão vitória do Grêmio Pão de Açúcar ao entardecer passada no hotel chopp no Belmonte beira-mar à noite bobó de camarão no Nomangue samba na porta do Bip-Bip brinde final resfriado hotel arrumar as malas check-out presente pro Arthur na recepção taxi pro aeroporto embarque desembarque segunda-feira momentos...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

#CASO 1: O herdeiro gato

Cheguei ao escritório naquela tarde, após o almoço que não me caiu bem. Abri a porta antevendo o que iria encontrar, e lá estava a figura familiar de Valeska, que me recebeu com um automático boa tarde, sem ao menos levantar o olhar do jornal para saber quem entrava na sala. "Deve conhecer o som dos meus passos", pensei com alguma admiração. Após dar meu boa tarde à secretária, passei-lhe instruções sobre as tarefas do dia e me fechei em minha sala. Não que tivesse muito a fazer, mas gostava de aparentar que tinha, e mais ainda de privacidade - ou de ficar só? Bom, estava só, fazendo anotações para uma audiência próxima, quando Valeska pôs a cabeça pela porta entreaberta e anunciou uma cliente nova, a quem eu disse que entrasse. Seu nome era Maria Adelaide, já idosa, bem vestida - embora com roupas antiquadas - e aparentemente com boas posses, que, após sentar-se, passou a expressar a razão de sua consulta. Disse ela que, já viúva e com o filho morando em outro país, vinha há tempos vivendo apenas na companhia de um gato de estimação, chamado Miau - pouco original, pensei. Mas, tendo alcançado os 80 anos, temia que não lhe restassem muitos dias mais, causando-lhe pavor o que poderia acontecer ao gato na sua falta...pobrezinho. Enfim, foi direto ao ponto, questionando se poderia deixar sua herança ao gato, por testamento, para que ele vivesse suas 7 vidas sem maiores preocupações materiais. A pergunta, obviamente, me surpreendeu. Na hora entendi o porquê da minha escolha pela cliente: se era para ouvir que a idéia é um disparate, que fosse com um advogado barato. Contudo, antes de raciocinar legalmente sobre a questão, não pude me conter de perguntar-lhe sobre a existência de outra pessoa a quem Dona Maria pudesse deixar o gato e, se fosse o caso, algum dinheiro para os seus cuidados. Respondeu-me, então, de forma lenta e carregada de uma certa dor, que não confiava em ninguém para o encargo. Nem mesmo em seu filho que, mesmo longe, parecia espreitar pela chegada da morte à porta da mãe. Que após a morte do marido, perdera, além de seu amor, também seu grande amigo, e daí o gosto pelas pessoas. Disse que, se não fosse a companhia do gato, a solidão lhe teria sido insuportável, e que o passeio diário com o Miau é a única coisa que ainda a motiva a sair da cama. "O senhor sabe o que é viver sozinho?", foi a pergunta que me fez e que, surpreso, respondi de pronto com um inseguro "não", de quem, pego desprevenido, diz o mais conveniente. Há dois anos tenho vivido sozinho sim, curando a dor de ter perdido alguém a quem amava e ainda sem saber como recomeçar a sentir algo por outra pessoa. Sem um bicho de estimação, minha vida tem sido trabalhar, ler, ouvir meus discos e deixar os dias passarem, numa rotina quase monástica. Como o trespasse de um raio, passaram pela minha mente, naquele instante, as imagens daquele dia difícil do acidente que vitimou Beatriz e a mim também, de certo modo inválido desde então. Retornando a atenção àquela senhora posta diante de mim com cara de dúvida, procurei ser direto. "A senhora não pode fazer de um gato o seu herdeiro. Mas eu lhe sugiro que doe a parte disponível de seu patrimônio, por testamento, a alguma instituição confiável de proteção aos animais, sob a condição de cuidarem do Miau". Ela ouviu e pareceu resignar-se com a resposta, como se já a tivesse ouvido antes por outro advogado - o que era provável. Agradeceu, pagou a consulta e despediu-se, não sem antes me dirigir um olhar ao mesmo tempo intrigado e descrente, de quem provavelmente não acreditara na minha resposta a sua pergunta. Fiquei ali sentado, após a porta se fechar, pensando nos riscos de ser solitário. De chegar ao final na vida e só ser capaz de fazer feliz a um gato - bobagem, claro, o gato sequer saberia do agrado, e talvez só viveria comigo por pura falta de opção. Antes de me perder divagando sobre as opções de vida dos felinos, consegui retomar a questão da solidão humana, e da minha em especial, para admitir que deveria me esforçar por sair de minha letargia sentimental e voltar a me envolver com outra mulher, que eu não fazia a mínima idéia de quem seria e de onde poderia encontrá-la. Resoluto, lembrei do samba de Paulinho da Viola e Toquinho como trilha sonora que o momento pedia, e dei um adeus solene a Beatriz...


"Quanto tempo, não sei dizer
Tanta mágoa, não sei contar
Só lembro da solidão que passei
Quando vi meu castelo desmoronar
Muito embora eu esteja
Com saudades de um beijo
Minha vida é melhor assim
Esperando o momento
De viver novamente
O amor que restou em mim"*


*Música "Caso encerrado"   -----------------------------------------------------------------------------------------------------------   Recordando o post de criação do personagem:   Nome: José Carlos Ferronato

Idade: 45 anos

Estado civil: viúvo – a mulher faleceu num acidente de trânsito há 2 anos

Profissão: advogado “clínico geral”, trabalha sozinho num pequeno escritório, num grande prédio comercial antigo com 300 salas, sobre uma galeria de lojas, no centro de uma grande cidade. Tem uma secretária chamada Valeska, que dá expediente no escritório apenas no turno da tarde e cuja idade se supõe ser cinqüenta e poucos anos.

Perfil de clientes: pessoas com algum dinheiro para contratar um advogado ao invés de buscar um defensor público ou fazer justiça com as próprias mãos, geralmente envolvendo casos de família, heranças, pequenos crimes ou desavenças, consultas de todo o gênero e questões às vezes não situadas dentro do largo âmbito do Direito

Formação acadêmica: seus pais eram pobres, porém o estimularam a ler os livros que traziam da biblioteca pública, até que a leitura se tornou um hábito mantido até hoje, o que lhe deu certa erudição e uma fina ironia. Estudou em escola pública e só se formou em Direito, numa universidade privada, trabalhando como escrevente concursado da Polícia Civil. Ao se formar, há 3 anos atrás, largou a Polícia para advogar, mas mantém alguns bons amigos policiais e aprendeu muita coisa sobre a vida e as pessoas – o melhor e o pior delas.

Residência: mora em um apartamento financiado num bairro de classe média/baixa, de dois quartos, ocupando um deles com seus livros e discos

Interesses: música (sambas antigos e bossa nova), literatura, mulher, futebol e trabalho – em ordem aleatória

Situação financeira: instável e normalmente deficitária

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Onde anda o rock brasileiro?

O rock brasileiro acabou? Certo que não. Mas que perdeu quase todo o seu espaço na mídia, não há dúvida. E por quê?


Pois é, em entrevista que li esses dias, o Samuel (vocalista do Skank) levantou uma questão interessante: que a atual cena rock brasileira não reivindicou e por isso perdeu seu espaço na vitrine musical do país, seja por medo ou por desinteresse. O fato é que, por isso, o rock nacional ficou reduzido a umas poucas bandas teen de som padronizado.

Realmente, olho um pouco para trás e vejo uma banda como Los Hermanos, que por certo tempo teve a hegemonia do rock Brasil, mas que parece ter feito a opção por permanecer na cena independente e escapar da grande mídia. Escolhas próprias à parte, o efeito disso foi a ocupação desse espaço por outros segmentos musicais, especialmente o sertanejo, que ganhou todo o campo possível e hoje domina massivamente o cenário musical brasileiro, desde a tv e rádio até os bares e clubes onde se toca música ao vivo.

Mas somos todos caipiras? Eu não, e acho que muita gente mais também não...

Não podemos nos esquecer que a economia influenciou decisivamente essa mudança de paradigma "artístico", ao fazer com que milhões de brasileiros ascendessem à classe C e passassem a consumir, inclusive, música - a seu gosto, obviamente -, levando naturalmente à explosão comercial do sertanejo.

O problema, como o mesmo Samuel refere na entrevista, é que deixamos de encontrar alternativa na mídia comercial, o que deixa de estimular o surgimento de novos ouvintes de rock & pop de melhor qualidade (blues, jazz etc., então, nem se fala), e, com isso, de novos músicos e artistas que levem adiante esses estilos musicais.

Enfim, a meu ver, o resultado de toda essa concentração de atenções num único segmento musical, por si só já pobre, é a mediocridade da atual cena musical brasileira e o temor de sua perpetuação...infelizmente.

domingo, 16 de setembro de 2012

Você ainda se emociona?


Quem ainda se emociona hoje em dia? 

Somos diariamente bombardeados por uma mídia materialista, que nos impele a comprar todo o tipo de coisa e a sermos ricos, bonitos e bem sucedidos. Por notícias que banalizam a violência e revelam a pouca valia da vida humana. Vivemos um dia-a-dia repleto de prosa, e quase nenhuma poesia. 

Então, pergunto, você ainda se emociona? Com o que? Com qualquer coisa, por menor que seja, capaz de tocar sua sensibilidade e lhe causar alguma emoção. Pode ser o trecho de uma música, um comercial de tv, a palavra de um amigo, a lembrança de uma noite que não se esquece, o rubor de quem lembra dessa noite, um reencontro muito esperado, uma data importante, um pôr do sol no meio do trânsito, coisas mais ou menos piegas, previsíveis, óbvias ou não, mas que por um lado ou outro da nossa particular maneira de interagir com o mundo nos deixa sensíveis a alguma emoção.

A verdadeira ignorância, tenho certeza, não está na falta de intelecto e cultura. A ignorância que deixa o olhar sem expressão, que torna as pessoas monossilábicas e rudes, que assusta pela crueldade de atos impensáveis, enfim, que retira toda e qualquer humanidade de alguém, é a ausência da capacidade de emocionar-se, porque é isso, e não o raciocínio, que nos difere dos animais.

A emoção, que resulta do colocar-se sensível a algo externo a nós mesmos, é o que permite existirem as virtudes e, ao final e sobre tudo, o próprio Amor, universalmente aceito como o bem maior.

Então, se você se enternecer por um momento que lhe pareça bonito, meu amigo e minha amiga, parabéns!, você está exercendo sua humanidade – mesmo que outros digam que isso é viadagem, TPM ou crise de meia idade, afinal, o mundo está mesmo cheio de gente insensível...hehehe.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O político de ocasião

Impressionante como tanta gente descobre sua "vocação" política na época das eleições. De uma hora pra outra, o sujeito se dá conta que é ideologicamente engajado a um partido político e que tem todas as condições e idéias necessárias para a melhoria de vida da comunidade. Então, se lança candidato a vereador. Tá certo que o salário é bom e o trabalho é pouco, mas o que o motiva "realmente" é sua firme convicção de que pode fazer mais por todos nós. Até há pouco, o cara não colaborava nem com festa de igreja, não ia a reunião de condomínio, sequer lia as notícias políticas da cidade e do país...agora, é como se tivesse nascido pra conduzir o povo até as soluções de todos os problemas locais. Bom, meu amigo, só não espere que eu caia nessa, porque eu não vou votar pra ver!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O tempo passa! Imagina se...

Faço 40 anos, olho pra trás e vejo como é rápida a passagem do tempo


Imagina se eu não tivesse...

Me permitido viver as paixões, mas acreditado no amor que encontrei

Encontrado um trabalho cujo desafio me estimula a melhorar sempre

Ter trabalhado com exemplos de profissionais maiores, de liderança, competência e integridade, que constitui minha maior realização profissional

Dado espaço para a música, aprendido a tocar um instrumento e me emocionado por fazer e ouvir música

Subido num palco com uma banda e me divertir fazendo as pessoas se divertirem, ou tocado uma boa música com o violão junto ao peito em casa sozinho

Ouvido meus pais, convivido com meus avós e sido amigo dos meus irmãos

Feito amigos e dividido com eles momentos que preservamos como tesouros

Aceito a tristeza quando foi inevitável, mas buscado sempre estar bem comigo mesmo e com os outros

Provocado risos e ter dado todas as risadas que pude

Recusado as drogas e sabido conviver com a bebida em tantas e tantas noites

Aproveitado o que a noite tem de melhor nas suas mesas de bar, nas conversas nem sempre coerentes mas essenciais, nas confissões de quem tinha algo a lhe dizer ou a ouvir, na beleza de momentos anônimos e únicos

Ter desfrutado da natureza e aprendido a respeitá-la



Ter...

Sido escoteiro

Pego aquele clássico na Malvina, Barrinha ou no Rosa Norte

Visto meus irmãos, sobrinhos e afilhados crescendo

Ido assistir os Stones no Maracanã em 95

Visto o Oasis, Clapton, Paul, Rush, R.E.M., Lenny, B.B. King, Nei Lisboa, Gil, Marisa, Police, U2, Fito e tantos outros

Viajado pra Salvador, Rio, BAires, Madrid, Barcelona, Amsterdam, Roma, Veneza, Florença, Lisboa, Miami, Lima, Santiago, Panamá, Angola... e, claro, Paris!

Caminhado até Machu Pichu com meus amigos e pelo Cartier Latin com a Cacá

Assistido a tantas Moendas e ter ajudado a fazer várias edições do festival

Escrito minhas coisinhas

Comprado o meu Fender Jazz Bass American Standard

Tocado na Anjos Rebeldes, Tiranossauro Sex, Making Of e Rock Box, com o Andre, o Sérgio, Curinga, Jeferson, Alvaro, Fred, Mohr, Luizinho, Dudu e o Ronnie

Crescido ao som dos anos 80, e depois o Rock, o Blues, a MPB, Jobim e a bossa

Fotografado

Feito a Unisinos, FGV e agora a UNR

Lido os livros que li

Apertado a mão do Saramago e me declarado seu fã

Conhecido o Prof. Ovídio e o Magallanes

Crescido em grandes pátios e ruas tranqüilas

Sentido medo do perigo e ainda assim seguido em frente

Ouvido o Roberto Carlos com o meu pai quando garoto

Descido a avenida de skate

Gostado dos Beatles e do Rubem Fonseca

Da poesia do Quintana e do Pessoa

Nadado no rio e no mar

Andado de moto, velejado de wind e remado de stand-up



Vivido! Graças a Deus...

Imagina!



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma noite para relembrar





O ano de 2012 está sendo de celebração e datas marcantes pra mim. São os 20 anos de vida com a Cacá e, daqui a uns dias, os meus 40 anos. Mas a noite do último sábado 11/8 foi especial porque, após 25 anos, voltei a tocar com meus amigos da primeira banda de que fiz parte, lá no ano de 1985, quando ainda pirralho disseram que eu seria o baixista e, desde então, isso faz parte do que sou. Nos separamos na busca por caminhos diferentes, mas a música nos reuniu novamente para um show de reencontro na noite de ontem, no Bar Meia-Meia 2 de Santo Antônio, cidade em que tudo aconteceu e que não nos esqueceu. O público feito de amigos nossos, velhos e novos, saudosos dos clássicos do Rock gaúcho da época e até de nossas composições próprias, assistiu ao show que conseguimos fazer, com dificuldades, mas com muito prazer e grande emoção - que, afinal, é o que importa. O resultado foi uma noite mágica, pra relembrar por toda a vida e confirmar a verdade de que as verdadeiras amizades criam vínculos que a distância e o tempo não conseguem romper. Escrevo assim mais um capítulo importante na minha pequena biografia musical, agora para tratar de reencontro e, por que não, de recomeço... Por isso agradeço aos meus amigos da Banda Anjos Rebeldes André, Sergio e Mauricio Coringa por acreditarem que era possível reviver momentos como esse, e posso dizer que o show de ontem foi o melhor presente de aniversário que eu poderia ganhar. Obrigado!

domingo, 15 de julho de 2012

Tiempo al tiempo

Estando en Rosario no hay como no buscar inspiración en Fito: Cada dia es una oportunidad De salir a la calle y enfrentar al viento Los sueños a veces se hacen realidad Dale tiempo al tiempo

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A verdadeira fidelidade

Sempre me surpreendi com a maneira desrespeitosa como alguns casais agem ao se separarem. É como se, em dado momento, nada mais do que viveram juntos importasse e valesse apenas acusar, humilhar, ofender ou desprezar o outro. Esse outro que, pouco antes, a mesma pessoa considerava o seu companheiro ideal, o amor da sua vida ou sua razão de viver. É claro, muitas vezes, as separações decorrem de episódios traumáticos – sobretudo quando envolvem um caso extraconjugal -, capazes de gerar grandes decepções e rancores de um para outro ou a ambos. Noutras vezes, uma aparente banalidade é o epílogo de uma união amparada no comodismo ou, até mesmo, em questões econômicas. Então, de uma ou outra maneira, parece uma reação quase natural responsabilizar o outro pela suposta “perda de tempo” dedicado a um relacionamento falido. Quando isso acontece, fica fácil a um denegrir publicamente o outro, como se isso fosse uma espécie de vingança particular pelo tempo que este lhe “roubou”. Eu, mesmo admitindo não ter lá muita experiência com separações e rompimentos, e também não querendo bancar o altruísta na teoria, sinceramente acredito que nunca poderia deixar de valorizar, como um precioso tesouro, aquilo o que vivi com outra pessoa. Aquilo o que é vivido, ou foi, é uma história escrita a dois, que se torna a história de vida de cada um, de modo inseparável, a ponto de não se poder renunciar a ela, pois não há como ignorar que aquele tempo existiu e tampouco há como saber o quanto a relação transformou você. Ao contrário, vai ser algo que cada um levará consigo para sempre, porque passa a ser uma parte sua. E mesmo que envolva algum sofrimento, também envolverá outros sentimentos mais importantes e aprazíveis à memória – dependendo, é claro, do que cada um prefere cultivar na lembrança... Mas se você está se perguntando o que tudo isso tem a ver com fidelidade, é porque concordo com aqueles que vêem a verdadeira fidelidade sem limitá-la à questão da monogamia, mas sim ao ser fiel a sua história com o outro – que, por isso, deve se extender mesmo após o fim da relação. Em seu grande “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, o filósofo contemporâneo André Comte-Sponville encerra o capítulo dedicado à Fidelidade com a síntese ideal a esse respeito: “Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem poderia jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos, as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos...”.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A hora incerta

Certos choques de realidade, por vezes, nos fazem perceber o quanto nossa vida é frágil. Semana passada, fui surpreendido pelo falecimento de um conterrâneo, com a mesma idade minha, levado por um câncer fulminante. Não era uma pessoa muito ligada a mim, sequer poderia chamar de amigo, era mais um conhecido dos tempos de colégio, mas sofri um certo choque com o fato porque, inevitavelmente, me coloquei em seu lugar. Se eu partisse agora, nesses meus quase 40 anos, teria feito tudo o que deveria fazer, vivido o suficiente, deixado alguma marca que perdurasse? Tenho certeza que não. Assim como imagino que ninguém a essa altura da vida diria "estou pronto". Entretanto, na maioria das vezes a hora extrema é incerta e não permite negociações ou adiamentos. E o que fazer? Viver todos os dias como se fossem o último? O carpe diem é um notório lugar comum, mas é possível adotá-lo como objetivo de cada dia? E o trabalho, as tarefas de casa, os compromissos de cada um? E a vontade de simplesmente não fazer nada, ou quase nada, especialmente com quem se gosta? Imagino que viver sob a própria cobrança de desfrutar intensamente cada dia seja algo mais estressante do que considerar a possibilidade desse dia ser o último. Admiro, realmente, aqueles que ainda jovens conquistam grandes feitos, para si próprios ou para a humanidade, mas me parece que chegam a isso porque, além de talento e quiçá genialidade, concentram todo o seu pensamento e energia para realizar sua obra. A realidade, porém, mostra que a grande maioria das pessoas vive de pequenas vitórias e fracassos pessoais, perdas e ganhos, construindo uma história de vida comum - nem por isso considerada medíocre -, que só permite mesmo ao juízo de quem a viveu avaliar o quanto teve de plenitude.

domingo, 17 de junho de 2012

Saudade de um vozeirão de mulher...

Dia desses, lendo uma crítica musical ao lançamento do novo disco de uma cantora – que nem lembro mais quem era -, me surpreendi com a observação do crítico que escreveu algo como “nesses tempos atuais de cantoras brasileiras que não cantam pra fora” e por aí ia...

De fato, isso me fez dar conta de que há tempos, mais precisamente desde que a Cássia Eller nos deixou, eu não me interessei por mais nenhuma cantora brasileira. E, realmente, a mim não me agrada essas cantoras que ficam nesse minimalismo vocal, sem se permitirem soltar a voz – que talvez não tenham! -, como se quisessem apenas fazer uma levada meio bossanova pra gringo ver.

Enquanto, lá fora, grandes cantoras vêm mostrando seu talento em alto e bom tom (a Adele, por e quê exemplo), por aqui, na terra que já foi de Elis Regina, hoje reina Maria Gadú...convenhamos, não dá pra comparar.

Que surja, por favor e logo, uma cantora brasileira com a voz, a coragem e boas canções para “cantar pra fora”!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Stevie Jobs estava certo...

Terminando a leitura da biografia de Stevie Jobs, comprei um IPad, no qual escrevo agora este post. Não, não comprei o IPad por causa do livro, já estava pensando num tablet. Mas sim, entender mais sobre a concepção desse e de outros produtos da Apple e do que inspirou seus criadores, acabou influenciando na escolha. E, querem saber? O homem da Apple estava certo mesmo ao insistir que a integração do software com o hardware, marca da sua empresa, poderia gerar produtos melhores aos usuários. Além disso, ele que era famoso pelo perfeccionismo e o senso de design obsessivos, criou equipamentos que nem sabíamos se seriam úteis, mas que depois de tê-los não podemos mais viver sem. Ainda estou me surpreendendo com os recursos e o funcionamento quase magico dessa maquininha. Um super organizador de conteúdos, gerenciador de tarefas, em que se pode visualizar e manipular fotos, criar, gravar e ouvir musicas, ler livros etcetcetc. Enfim, é uma interação muita mais eficaz e, ao mesmo tempo, simples com um computador - na verdade, não dá para chamar disso porque é outra coisa. Para quem conheceu o DOS, o 386, e achou que o Windows XP num notebook era o máximo, esse negócio aqui é de outro mundo. Thank you Mr. Jobs!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dica de filme: O Exótico Hotel Marigold



Assistimos nesse último final de semana ao filme "O Exótico Hotel Marigold", que posso recomendar não como uma obra-prima ou de grande impacto, mas sim como um filme bonito porque ambientado na Índia, mostrando um pouco dos costumes e da vida urbana nesse país tão exótico, e principalmente por passar uma bonita mensagem de que a idade e os fracassos não impedem novos rumos, recomeços e amores, ainda mais quando a história é contada por um elenco de tamanha qualidade...vale a pena!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Acaso?

Nada é por acaso, mesmo!, a não ser o que não tem importância...e olhe lá!

domingo, 20 de maio de 2012

Mudar, sempre!

Muitos pensam que passamos a vida toda sendo sempre as mesmas pessoas. A meu ver, mudamos a vida toda sendo sempre as mesmas pessoas. Acontece que, aqueles, parecem resistir em aceitar isso para si mesmos. Acreditam que a essência humana é imutável, assim como nossos valores, princípios, certezas, e daí porque pensam que continuarão sendo quem sempre foram. Penso, por aquilo o que vivo e observo, que mudamos sempre porque a vida nos impõe a isso e não conseguimos ficar impassíveis diante dela e das histórias pessoais que protagonizamos - na maioria das vezes, improvisando. As causas de nossas constantes mudanças advém de nossas frustrações, perdas, vitórias, sentimentos e impressões daquilo o que vai nos acontecendo durante o caminho, levando-nos a mudar de direção, opinião, pensamento e desmistificando nossas "sólidas" verdades absolutas sobre tudo e todos. Coisas acabam, outras começam, e saímos sempre diferentes do que quando entramos. De filhos, passamos a pais. De solteiros, a casados. Crianças, adolescentes, adultos e idosos: sempre as mesmas idéias, princípios e interesses? As dúvidas são resolvidas por respostas que geram outras dúvidas, e nossa opinião varia como um pêndulo. Ah, a suas opiniões são firmes como rochas?! Então, talvez, você não as esteja pondo à prova, ou esteja cometendo muitos erros por causa delas. Quem resiste à mudança de si mesmo pode estar ignorando as circunstâncias que a justificam, ou iludindo-se quanto a seu efeito por razões de comodismo, temor ou soberba. Mudar é praticar a racionalidade própria de nossa espécie, ao invés de seguirmos o curso dos instintos animais repetidos desde sempre. É ser sensível frente ao novo e aceitá-lo, ou adaptar-se a ele, sem pretender desafiar sua força inexorável. É perceber que algo está errado e não vai bem, exigindo novas decisões porque as velhas não se aplicam mais. É ser, humano... Sempre preservaremos, em maior ou menor medida, o discernimento sobre o certo e o errado, virtudes e defeitos característicos de nossa personalidade, decorrentes de nossa educação e modo de ver o mundo. Também é pouco provável que nos tornaremos extremos do que somos - de honesto a marginal, de pilantra a modelo de conduta. Mas até isso pode acontecer e exemplos não faltam. Como disse o Fernando Pessoa "não nos banhamos duas vezes no mesmo rio" - ele não será mais o mesmo, nem nós... O quanto nos distanciaremos de quem somos talvez dependerá do quanto precisaremos mudar para encontrarmos quem realmente somos. Então, não tenha vergonha de mudar, porque o pior é deixar para assumir suas mudanças quando elas não fizerem mais diferença na sua vida. Um novo trabalho, um novo lugar pra viver, um recomeço, uma nova relação, uma grande vontade, tudo isso pode trazer medo, insegurança, mas também traz novas oportunidades de se ser alguém melhor e, quiçá, mais feliz. Provavelmente este texto não mudará a vida de ninguém, mas pra sintetizá-lo com algum brilho, em especial aos que não aceitam conjugar o verbo mudar,  termino ele com a citação clássica de um velho sábio grego que há muito sacramentou: "Nada é permanente, exceto a mudança" (Heráclito).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

BUDDY GUY'S BLUES IN POA!

A noite de ontem, 15/05, foi especial por poder assistir, junto com o meu irmão Filipe, ao show da lenda viva do Blues de Chicago Buddy Guy. O cara que, junto com B.B. King, é um dos monumentos vivos do Blues, influenciou nomes como Eric Clapton e Jimmy Hendrix, e ontem deixou extasiada a platéia de amantes do estilo reunida no Bourbon Country.

Segue abaixo os comentários e imagens do Blog do Grings, que mostram em detalhes os tantos pontos altos da noite.

Thank you Mr. Blues Buddy Guy!

Buddy Guy / Teatro do Bourbon Country, terça-feira, 15 de maio de 2012

16 de maio de 2012 2
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Foto: Fábio Codevilla
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Buddy Guy enfeitiça público gaúcho

21h. Você sabe que o homem que pisará no palco do Teatro do Bourbon Country em instantes é uma Lenda. Ele trabalhou ao lado de nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, e outros tantos “Peixes Grandes” do blues. Impregnou-se de todas aquelas mágicas canções e seguiu em frente, sacolejando no trem do tempo & sobrevivendo aos altos e baixos de sua carreira ao longo dos anos. Prestes a completar 75 anos, Buddy Guy passou no teste do tempo. E, além disso, aceitou receber o Cetro em suas mãos - como um autêntico portador do Legado dos Velhos Tempos, e o melhor: - ainda na ativa, quase sempre encantando multidões com uma guitarra endiabrada. Antes já havia seduzido nomes como Jimi Hendrix, Eric Clapton e milhões de meros mortais ao passar das últimas cinco décadas. Atualmente, catequiza novos seguidores a cada show.
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Fábio Codevilla (Itapema FM) editou um vídeo-drops da noite. Veja a galeria de fotos do Codevilla no site da Itapema.
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21h10min. Guy entra no palco. Ele é o cara e a Cara do blues. Você sabia que o show começaria com “Nobody understands Me But My Guitar”, um velho blues da dupla Cristian/Holmer. No início o som de sua guitarra soa cristalino, límpido, para logo após, assemelhar-se a algum de pássaro agonizante, uma espécie de animal preso a alguma armadilha. Entre um bend e outro, Guy toma um gole de uma xícara branca sobre seu amplificador. O homem é só sorriso. Você já está em estado de graça.

“Hoochie Coochie Man”, velho standard composto por Willie Dixon que Muddy Waters roubou pra si, ganha um arranjo extremamente macio no início da execução. Entra em campo a velha dinâmica do blues, tanto que Guy canta a segunda parte da música longe do microfone (Etta James adorava cantar desse jeito), e por isso ele pede silêncio com o dedo na frente da boca "tssssssssss!!!". Só então conseguimos ouvir cada sussurro que sai de sua garganta. A guitarra pode ser tocada de várias formas: ao contrário, com as cordas roçando contra sua roupa e produzindo ruídos que dialogam com o tema. O instrumento é uma extensão de seu corpo, certas vezes até se projeta como um objeto fálico. Ele brinca. A plateia ri. Buddy deixa a segunda parte do solo para o guitarrista Rich Hall, que também dá uma de acrobata como um dos Globetrotters girando sua bola de basquete. Só que é a guitarra que rodopia bem na frente de você e seus olhos incrédulos.

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Foto: Lucas Cunha
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Outro velho Cavalo de Batalha de Muddy Waters, “She’s Nineteen Years Old”, mostra o quão sexy Guy pode soar no palco. Sua versão preferida era uma ao vivo de Muddy com Little Walter na harmônica. Era. Depois dessa noite, nunca mais você irá separar os acordes dessa canção com a imagem de Buddy Guy. A conotação sexual da letra toma dimensões ainda mais palpáveis quando o guitarrista crava o olho numa loirinha na linha de frente da audiência e canta algumas estrofes diretamente pra ela. Velho safado!

Quando ele e a banda tocam uma das canções do álbum “Slippin’ In (1994), há uma clara demonstração de que o público do Bourbon Country conhece suas músicas. Guy provoca os espectadores a cantar o refrão - a massa responde de pronto: “Oh Someone else was slippin' in”. O showman rebate: “I Love Brazil”. Aplausos ao homem! Guy faz um duelo satírico com o tecladista Marty Sammon, que em alguns momentos emula o Hammond de John Lord, do Deep Purple. Sim, é um show de blues, mas há momentos que a festa esquenta e o blues naturalmente se maquia de seu rebento mais novo. Vale reprisar o bordão:” O blues teve um filho e o nome dele é rock’n’roll”. O finado Ike Turner que o diga!
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Foto: Lucas Cunha
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A próxima atração do set é “Fever”, música composta por Eddie Colley e John Davenport, que ganhou o mundo em 1953 com a cantora Peggy Lee. A versão de Elvis também vale a pena ser mencionada. E é justamente o Rei do rock que lhe vem à mente quando Guy começa a cantar baixinho frente a microfone como um amante seduzindo seu objeto do desejo. Você sorri quando Guy finaliza o tema a capela, com todo um repertório de sussurros, gemidos e clichês blueseiros que deixam o público enfeitiçado. O blues sempre te deixou assim. Em transe.

Emendando um som no outro, lá vem mais um número do compositor Willie Dixon “I Just Want Make Love To You”. O baixista Orlando Wright sorri para o ‘Boss’ e jinga o corpo de leve com um embalo metódico como o tique-taque de um relógio. Dá pra você perceber que Guy não larga o osso de algumas canções básicas de um bom show de blues, e também cai a ficha pra você da importância de Willie Dixon na vida do guitarrista e de vários nomes da música negra. Dixon mereceria uma estátua em algum lugar dos Estados Unidos. Quem sabe em frente ao velho estúdio do Chess Records, onde trabalhou tantos anos, e aonde o próprio Guy, muitas vezes bateu papo com ele durante os intervalos das gravações, pegando as manhas do “negócio”, entre um cigarro e outro. No final ele faz um medley com alguma outra canção que você não reconhece. Essa é outra das pautas da noite: pequenos recortes (vinhetas) que interligam músicas, e pagam tributo a vários amigos compositores.
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Foto: Lucas Cunha
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“74 Years Old” é um dos sons de “Living Proof”, álbum de 2010 que ainda é seu último registro fonográfico. É sem dúvida um dos melhores músicas do CD/LP. Guy soa reflexivo, tranqüilo, como se contasse os cobres e percebesse que sua vida ainda tem muita lenha pra queimar. Você chega a conclusão que caras como Buddy parecem intermináveis, indestrutíveis, únicos. E que som vaza de seu ampli. “Down Don’t Bother Me” é o momento em que Buddy Guy desce do palco e passeia pelo Teatro. O público delira, filma, toca nele, chora - se debruça sobre suas cadeiras esticando o pescoço, ou levantando para que possa percebê-lo em todas as nuanças e bem de pertinho. Vitor Cesar (um de seus brothers e guitarrista de blues/rock) o persegue pelo corredor como um apóstolo correndo atrás do Messias. Uma lágrima escorre do rosto de Vítor, justamente quando o garoto fica olhos nos olhos com o ídolo. Buddy não tem medo de se infiltrar na massa como um de vocês. E você conclui, além de talentoso, Buddy Guy é um cara legal.
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Foto: Lucas Cunha
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Logo depois vem mais um daqueles recortes-tributo: Numa tacada só você ouve um medley de “Use Me” (Bill Withers), “Rock Me Baby” (B.B. King) e “I Miss You” (Rolling Stones). Ele troca de guitarra em “Skin Deep”. A música que dá nome ao álbum de 2008 - é uma das melhores baladas de Buddy Guy. O tecladista Marty Sammon faz o único (e belo) backing vocal da noite. "Que música bonita", você pensa...

Aí vem outro mash up de homenagens. Assim como os ingleses levantaram a bola do blues nos anos 1960, Guy homenageia o amigo Eric Clapton em uma releitura adocicada de “Strange Brew”, do Cream. Um americano devolvendo a bola pra Terra da Rainha. Bacana. Depois voltar a mostrar seu repertório de malabarismos em “Voodoo Child (Slight Return)”, tema do falecido pupilo Jimi Hendrix. E você lembra que muita gente não sabe, mas todo esse lance de exibicionismo cênico com a guitarra começou com músicos como Buddy Guy. Foi depois de ter assistido o Mestre, só então, Hendrix começou a tocar com os dentes, tocar de costas, com a bunda (sim!) e sabe-se lá de que outra forma mais. O riff de “Sunshine of Your Love”, por exemplo - é executado com uma flanela dando bordadas nas cordas. Acreditem: o homem é um mago! Já beirando o fim do espetáculo ele tocou um som que homenageou o velho parceiro Junior Wells (falecido em 1998), que você pede desculpas aos leitores, pois não reconheceu (não lembra) o nome da música. Enfim, coisas de uma noite emocionante...
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Foto: Lucas Cunha
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Chegamos ao epílogo. A versão instrumental de “Let the Doorknob Hit Ya” serve apenas como pano de fundo para que Buddy distribua seu afeto entre a turma que avança ao palco. Autografa LPs, CDs, ingressos, ele joga quase uma centena de palhetas para o público e após cinco ou seis minutos de confraternização com os fãs gaúchos, finalmente sai de cena às 23h40min. 1h e 1/2 de espetáculo pra ficar na memória. Os shows no Rio, SP e Porto Alegre, foram seu aquecimento para o tour 2012. Daqui a três dias ele começa a turnê norte-americana. Próximo sábado Buddy toca no Smith Center, em Las Vegas. Você parece aprisionado a noite passada. 15 de maio de 2012, o dia em que você assistiu a lenda.
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Agradecimentos: Andressa Griffante (OPUS), Fabiano Dallmeyer, Lucas Cunha e Fábio Codevilla (Itapema FM).
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Banda:
Buddy Guy (guitarra, vocal)
Rick Hall (guitarra)
Marty Sammon (teclado)
Orlando Wright (baixo)
Tim Austin (bateria)
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Buddy "Hoochie Coochie Man" Guy Foto: Fábio Codevilla
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Com pinta de rapper ou jogador de basquete, Rich Hall (guitarra) - um guitarrista de blues e sideman de Guy Foto: Fabiano Dallmeyer
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Em cena a elegância de Orlando Wright (baixo). O músico já tocou com Sugar Blues, Junior Wells, The Staples Singer e Phil Guy. Foto: Fabiano Dallmeyer
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Mestre de cerimônias e tecladista. Marty Sammon. Trabalhou com Eddie C. Campbell, Clarence "Gatemouth" Brown e Phil Guy. Foto: Fabiano Dallmeyer
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O "peso pesado" das baquetas, Tim Austin (B.B. King e Phil Guy) Foto: Fabiano Dallmeyer

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma vida de possibilidades

Todos nós vivemos entre possibilidades. Não importa se a pessoa seja
rica, pobre, bonita, feia, inteligente ou não, sempre teremos
possibilidades.

Algumas delas, são causadas por aquilo que fazemos.
São como reações a nossos estímulos conscientes, como, por exemplo,
quando concluimos um curso universitário e tornamos possível uma
carreira profissional dependente dessa formação. Outras, no entanto,
são latentes, ou potenciais, às vezes imperceptíveis até, mas estão a
nosso redor, esperando para ser descobertas, exploradas, aproveitadas.

E, como os frutos da estação, podem amadurecer e cair, sumindo, sem
serem saboreadas.

A vida nada mais é do que escolher, renunciar e viver suas possibilidades.
E quando as escolhemos elas se tornam a nossa realidade. Portanto, mesmo
que possa não parecer, vivemos em grande parte de acordo com as possibilidades
que criamos para nós mesmos. Não se trata do acaso, mas de escolha, mesmo que
inconsciente.

E a injustiça do mundo está em que a distribuição de possibilidades
entre as pessoas é desigual, alguns tendo mais ou muito mais que
outros. Mas isso não é desculpa para ninguém render-se ao derrotismo,
pois todos podemos e é importante ter a consciência disso. Sim, querer
é poder, mas a vontade por si só não realiza enquanto não envolver o
compromisso de esforço e tempo, variáveis essas muitas vezes vistas
como intransponíveis por aqueles que desistem de conquistar suas
possibilidades.

Não tenho dúvida de que qualquer um, do maior ao
menor, ou melhor e pior, em qualquer coisa, é resultado de um conjunto
de possibilidades realizadas ou frustradas.

Assim somos, o que fizemos ou deixamos de fazer por nós mesmos,
ao passo que o destino, o governo, a cor, a pobreza, o amor não correspondido,
a vontade divina, a falta de tempo e outros tantos obstáculos são o que, muitas vezes
ou pela vida toda, usamos para nos proteger de nossa própria frustração.