sábado, 27 de março de 2010

Atitude ou encenação

Ao ir a um show de rock de grandes bandas eu sempre tendo a reparar na postura de palco dos caras, pra ver até que ponto estar ali fazendo o show de número 159 do ano ainda mexe com eles, de forma autêntica, ou se tudo já se resume a encenar. Todas as bandas, depois que assumem algum profissionalismo, têm que representar, seguir um roteiro, mesmo que mínimo, pra criar uma interação com seu público e passar alguma presença de palco. Faz parte do show... Às vezes isso fica forçado e quase não convence. Outras vezes, bem, o artista parece se deixar contagiar pelo maior ânimo da platéia ou por estar num bom dia. Já presenciei shows dos dois jeitos. Shows em Porto Alegre (Oasis) e Buenos Aires (U2), por exemplo, em que a banda tomou tamanha surpresa com a reação positiva do público e é de tal forma contagiado por ela que a velha e genuína vontade ( ou fúria) de tocar volta com tudo, e assim se torna um autêntico show de rock em que ninguém, nem artista nem público, precisa representar. Outros shows (o do Guns, recentemente), mesmo bons pela qualidade dos músicos e hits consagrados, são burocráticos e tanto seguem um roteiro que você parece estar assistindo a um filme. Tem muitas poses, jogadas ensaiadas, frases decoradas e a bendita fúria vira um pastelão. Mas é isso, música no mainstream é negócio e como tal segue fórmulas para conseguir e manter mais clientes, ops, fãs. Vem daí a velha questão sobre o que uma banda é enquanto está no underground e o que passa a ser com a fama - passagem que seu público muitas vezes não perdoa...

domingo, 21 de março de 2010

Memórias Musicais VI


O fim da TSEX e a dispersão da banda coincidiu com minha volta pra Santo Antônio, por volta de 2004, depois de alguns morando em Novo Hamburgo. O Fred, vocalista da TSEX também havia se mudado pra cidade com a família um pouco antes. Daí que não deu outra, tínhamos que montar outra banda pra continuar tocando. Antes de conseguirmos chegar nessa banda, demos algumas canjas ora com o Alvaro (TSEX) na bateria, ora com o Dani (primo), como rolou numa das lendárias festas na casa do Dani Provenzi e noutra do Nada Chega. Mas nessa época surgiu em Santo Antônio o excelente estúdio do Edmundo Mohr, pai do baterista Guilherme, egresso da "Éramos Três" - banda formada por ele e outros grandes músicos locais (Dani Israel, Tassio, Luizinho e Paulinho). Não demorou que a gente se cruzasse pela cidade e marcasse um ensaio, onde também pintou o guitarrista Luizinho - outro ex-Éramos Três -, e daí tava feita a banda, que veio a se chamar "MAKING OF". Depois, juntou-se a nós o percussão e garoto verão Tiago (explico: o cara era namorado da garota verão Janaína, também da cidade). Formado o time, definido o repertório com pop-rock nacional atual e algum samba-rock, era hora de ir pro palco. A banda só fez shows em Santo Antônio mesmo, em festas nos clubes (salve Dani! e Nada Chega), casas noturnas e num bar muito especial, a Choperia, criado pelo Fred e a Mariana, com projeto da Cacá, onde rolaram noites memoráveis, especialmente nos pós-Moendas. A MAKING OF também tinha uma pegada muito boa e interagia bem com o público, levando a shows com muita vibração - numa festa de Natal no Porão isso quase fez o chão cair com a empolgação da galera. Mas, apesar do nome que conseguimos fazer na cidade, a dificuldade em conciliar a banda com o trabalho e os objetivos de cada um levou a que a coisa morresse aproximadamente uns dois anos depois. Um dos lados bons de se ter uma banda, apesar dos conflitos que sempre ocorrerão dentro dela, são as amizades que se fazem e se fortalecem. No caso da MAKING OF, em especial a amizade com o nosso querido Mohr, que nos mostrou a dar o máximo no palco - dizendo "tem que tocar de pau duro!" - e que hoje trava uma luta individual que é exemplo pra todos nós. Mas a história das bandas não acaba aqui...e será que um dia acabará?
* foto da banda no camarim depois de um baita show em festa do Dani no CRP.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Memórias Musicais V


Final dos 90 e eu morava e trabalhava em Novo Hamburgo, onde reencontrei o meu amigo de colégio e guitarrista Jéferson, ex “Sílvia em Paris” e que na época tava tocando com uma banda de colegas da odonto. Falamos em tocar juntos e logo ele falou do Alvaro (ex “The Buds” e outras), baterista que tinha voltado dos EUA e tinha um puta equipamento. E assim começamos a fazer um som nós três, na casa do Álvaro, e daí pra surgir a idéia de montar uma banda e fazer shows foi rápido. Depois de algumas tentativas frustradas de encontrar um vocal, o acaso – e a minha cunhada Mariana – trouxe o Fred, que também já havia passado por outras bandas e nos convenceu já no primeiro teste. E foi ele o infeliz que sugeriu o nome da banda, na brincadeira, e que pegou: TIRANOSSAURO SEX. O escracho do nome combinava com um repertório pop-rock Brasil beeem pegado: Rappa, Charlie Brown Jr., Detonautas, CPM 22, J. Quest, Papas, Comunidade Ninjitsu etc. O repertório não refletia assim o gosto pessoal da banda, mas era o que a gente acreditava que funcionaria bem nos shows. Ah, os shows... Tivemos shows memoráveis, pelo menos pra mim, porque a banda mandava muita pressão sonora do palco. Fizemos o primeiro show em Santa Cruz do Sul, depois foram vários em Bento Gonçalves, o Bar do Joe em Garibaldi, POA, Novo Hamburgo (obrigado a Singles pelas canjas no Alternativo), em São Leo, onde o Marrakesch era nossa “casa” – um muquifo 5 x 15m que ficava completamente lotado e onde a banda tinha que mostrar a que vinha...muito rock’n roll! Tentamos levar mais longe a TSEX. Gravamos demos de covers pra divulgação da banda em bons estúdios. E, depois, entramos numa de fazer som próprio – o que eu era totalmente favorável, vendo nisso algo de mais futuro e retorno. Mergulhamos nisso, gravamos em torno de 8 músicas próprias – muito boas por sinal -, mas esbarramos na dificuldade de ter pouco tempo pra dedicar à banda e às dificuldades do próprio mercado musical independente. Chegamos a participar com nossa música própria “Tempo certo” em um festival de bandas da Rádio Atlântida, na etapa do litoral, mas perdemos pra torcida adversária – serviu, pelo menos, para que eu ouvisse nossa música na rádio...demais! Assim, decidimos voltar para a maior facilidade do cover. Na sequência, o Fred virou pai e mudou de cidade, em seguida eu também me mudei, e assim a coisa morreu lá por 2003. Cada um seguiu outros projetos, outras bandas, outras idéias. A TSEX ainda permanece lá como uma banda especial pra mim, aquela onde mais estive próximo de me realizar como músico, junto com grandes músicos e amigos de sempre, por ela comprei o meu Fender Jazz Bass e foi onde aprendi muito sobre como as coisas funcionam nesse meio, entre sonhos e a dura realidade. Mas a história continua, e o “Making Of” dessa história é o próximo capítulo...

sábado, 6 de março de 2010

Espectador privilegiado


Nessa última e recente ida ao Rio para gozar as merecidas férias, estava nos meus planos conhecer o Beco das Garrafas e o Bar Garota de Ipanema (antigo Veloso), pontos referenciais do nascimento da Bossa Nova e de sua trupe. Soube que o Beco das Garrafas está sendo retomado com algumas casas noturnas e bares, mas acabou que não foi dessa vez que conheci o lugar. Conhecemos o Garota de Ipanema, localizado na Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema. O lugar já está meio decadente e, pelo jeito, sobrevive graças aos turistas (sobretudo estrangeiros) que conhecem sua história. Entramos, escolhemos uma mesa, pedimos chopps e bolinho de bacalhau. O que lembra o vínculo do lugar com seus ilustres frequentadores de outras épocas são apenas algumas fotos na parede evocando os mais famosos bossanovistas e o movimento. Foi então que reparei naquele garçom de mais idade e o chamei para perguntar se ele trabalhava no bar havia muito tempo, ao que ele confirmou que trabalhava há 40 anos e que era seu "primeiro e último emprego". Na hora perguntei afirmando que ele teria conhecido Tom Jobim, Vinícius e os demais que os acompanhavam em longas tardes e noites de chopps, conversas inimagináveis e muita, muita música. Ele, obviamente, confirmou, e com uma certa resignação de quem guardava aqueles tempos como um grande tesouro. Disse que servia pessoalmente Tom Jobim, inclusive na beira da praia, ali em frente, dias antes dele viajar para os EUA onde faleceu. Perguntei então se não fôra ele que atendera o telefonema do Sinatra no bar pedindo para chamar o Tom. Pra minha surpresa, ele confirmou, dizendo ainda que não sabia falar inglês para saber que se tratava do ilustre americano, indo apenas chamar o Brasileiro para a conversa que iria resultar no disco que ambos gravaram. Diante da minha surpresa e da simpatia daquele senhor com suas tão valiosas lembranças, não resisti a tirar uma foto com o Seu Arlindo, esse espectador privilegiado de conversas e momentos protagonizados por homens que fizeram o mundo se curvar à música brasileira. Grande Seu Arlindo, que inveja!
* a história do telefonema do Sinatra é real e consta da biografia de Tom, feita por Sérgio Cabral.